Literatura e bolivarianismo

Um presidente exuma os restos mortais de Simon Bolívar para provar que ele foi envenenado pelo imperialismo. Um líder andino adverte que o consumo de frango tratado com hormônios causa homossexualismo. Um padre se elege presidente, mas é obrigado a responder a vários processos de paternidade. A América Latina segue cheia de personagens fantásticos, mas onde está Gabriel García Márquez quando precisamos dele?

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

Há 30 anos, os melhores escritores da região estavam a postos. Molharam a caneta na tinta da história e inventaram fabulosos tiranos e demagogos, lançando um gênero de ficção que ganhou o mundo. Em obras magistrais, como O Outono do Patriarca, do colombiano García Márquez, A Festa do Bode, do peruano Mario Vargas Llosa e Eu, o Supremo, do paraguaio Augusto Roa Bastos, despertaram as atenções para latitudes até então ignoradas pelo público internacional. Nasceu "La novela del dictador", produto mais marcante do realismo mágico, gênero estudado, lido e imitado mundo afora.

Os autores não explicitaram os ditadores em que se inspiraram. Afinal, trabalhavam com ficção, não com jornalismo ou história. Na fantasia, porém, acharam o artifício perfeito para desnudar brutos, messiânicos, paranoicos e fanfarrões. O supremo de Roa Bastos era Juan Gaspar Rodríguez de Francia, que mandou no Paraguai no século 19. Os leitores paraguaios que viviam debaixo da bota do general Alfredo Stroessner, porém, não precisavam de maiores explicações. Da mesma forma, o decadente patriarca de García Márquez, que arrastava seu testículo hipertrofiado pelo chão do palácio, era a metáfora de ditadores dos anos 70 e 80, como Augusto Pinochet, do Chile, e o argentino Leopoldo Galtieri.

Com a literatura, os caudilhos ganharam notoriedade global, enquanto a sociedade conseguiu uma poderosa lente de aumento para focar sua pior disfunção política. Mas porque ninguém escreve sobre os coronéis de hoje? Os países da aliança bolivariana governam milhões de cidadãos a ferro e fogo. Mas, fora alguns chargistas, historiadores e jornalistas, os déspotas do nosso tempo passam incólumes pela literatura.

Há algumas explicações. Primeiro, a literatura latino-americana mudou. Para alguns, expirou-se o prazo de validade do realismo mágico. Agora, os escritores rejeitam rótulos e escrevem sobre o que bem querem. Outra explicação é política. Os ditadores de antigamente eram todos de direita, fáceis de repudiar e satirizar. Os tiranos atuais são mais sofisticados: sabem que, num mundo globalizado, manipular a democracia é mais factível do que promover golpes e massacres.

Mais importante, todos se declaram de esquerda, grife que inspira a condescendência da classe artística. Assim, os bolivarianos ganham indulto de intelectuais e celebridades de Hollywood. É uma pena. A literatura da America Latina ganhou asas justamente quando seus maiores talentos debruçaram sobre sua história e produziram obras de ficção inovadoras. Agora, os autores se libertaram da prisão da geografia e da política. Escrevem o que querem, seja sobre zumbis ou seu próprio umbigo. Mas, no caminho, perderam uma bela história.

É CORRESPONDENTE DA ''NEWSWEEK'' E COLUNISTA DO ''ESTADO''

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