AP Photo/Rodrigo Abd
AP Photo/Rodrigo Abd

Litoral da Venezuela sofre com pirataria

Crise econômica destrói atividade pesqueira na costa do país e abre caminho para saques

O Estado de S.Paulo

09 Dezembro 2016 | 05h00

CUMANÁ, VENEZUELA - Piratas mataram o irmão de “Flaco” Marval e dois primos dele. Os rumores eram de que eles ainda viriam pegar o restante da família. O garoto magro de 17 anos e outros homens da família buscaram as armas artesanais feitas de canos, usaram drogas para aumentar a energia e foram patrulhar as cidades do vilarejo. 

“Temos que matar esses ladrões e depois poderemos pescar em paz como sempre fizemos”, disse. 

Piratas estão aterrorizando a costa do Estado venezuelano de Sucre, que já foi o quarto principal produtor de atum do mundo e tinha uma importante indústria pesqueira. O comércio entrou em colapso, assim como praticamente todos os setores da economia venezuelana. 

Gangues de pescadores desempregados roubam quem ainda se aventura no negócio da pescaria, levando barcos e pescado. Às vezes, os comerciantes são agredidos e até mortos. 

“As pessoas não podem mais viver da pesca. Eles agora usam os barcos para as opções que sobraram: contrabando de gasolina, pirataria e tráfico de drogas”, disse José Antonio Garcia, presidente do maior sindicato de pescadores de Sucre. 

O Mar do Caribe tem se tornado cada vez mais um vale tudo, segundo os pescadores locais. No caso da família Marval, sete deles se preparavam para voltar para casa após um dia de pesca em setembro, quando ouviram os tiros. “Não tem como fugir quando você está no mar. Apenas rezei”, contou Edecio Marval, de 42 anos.

 

Os piratas mataram o filho de Edécio e se preparavam para matar um sobrinho dele, que só escapou por ser conhecido de um deles. Após chorar pelos parentes mortos, a família tentou denunciar o caso à polícia. Eles reconheceram o líder da gangue de piratas: um jovem de 19 anos conhecido com “El Beta”. 

Desde então, a família tem sido ameaçada. “Seu irmão chorou como um m... quando o matei. Agora pegarei todos vocês”, disse ele em mensagem de voz repassada às autoridades. 

A família então se assustou. Desistiu de mandar os filhos à escola e de frequentar o hospital público local, controlado pelos capangas de El Beta. “Não era seguro sair de casa”, contou Tibisay Marval.

A Guarda Nacional chegou a prender um dos membros da gangue, mas as prisões superlotadas e o medo de delatar os piratas são alguns dos motivos que permitem à gangue seguir atuando.

“Você ouve falar de pirataria como se fosse alguém roubando navios no leste da África”, disse o advogado Luis Morales. “Mas aqui são pescadores pobres roubando outros pescadores.” / AP

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.