Ints Kalnins/REUTERS
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Lituânia versus China: Como um pequeno país báltico desafia uma superpotência em ascensão

Conflito envolvendo celulares da Xiaomi é apenas mais um capítulo da batalha entre os dois países

Andrew Higgins, The New York Times, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2021 | 14h00

LITUÂNIA- Nunca foi segredo que a China controla firmemente o que seu povo pode ler e escrever em seus telefones celulares. Mas isso foi um choque para as autoridades da Lituânia, que descobriram que um aparelho popular de fabricação chinesa vendido na nação báltica tinha uma característica oculta: um registro de censura de 449 termos proibidos pelo Partido Comunista Chinês.  

Imediatamente, o governo acionou autoridades do país para pedir que, caso tivessem esses telefones, os descartassem. Com o movimento, irritou a China -- mas essa não foi a primeira vez que os dois países entraram em rota de colisão.

Nos últimos anos, a Lituânia também abraçou Taiwan, uma democracia vibrante que Pequim considera uma província renegada, e retirou-se de um fórum regional liderado pela China, que o país báltico considerava divisivo para a União Europeia.  

Em retaliação, Pequim retirou seu embaixador da Lituânia, suspendeu as viagens de um trem de carga chinês ao país e tornou quase impossível para muitos exportadores lituanos vender suas mercadorias na China. 

Subsequentemente, a mídia estatal chinesa lançou um ataque contra a Lituânia, criticando a sua diminuta extensão territorial e a acusando seu governo de ser a "vanguarda anti-China" na Europa.  

No campo de batalha da geopolítica, Lituânia versus China dificilmente é uma luta justa - a primeira é uma pequena nação báltica com menos de 3 milhões de pessoas, e a segunda é uma superpotência em ascensão, com 1,4 bilhão de habitantes. 

Os militares da Lituânia não têm tanques ou aviões de caça, e sua economia é 270 vezes menor que a da China.  Mas surpreendentemente, a Lituânia tem provado que mesmo países minúsculos podem criar dores de cabeça para uma superpotência, especialmente uma como a China, cujos diplomatas parecem determinados a obrigar outras nações a fazer o que está dentro dos interesses nacionais do país asiático. 

A Lituânia, que faz pouco comércio com a China, já fez barulho suficiente, e seus companheiros da União Europeia irão discutir a situação em uma reunião na próxima semana. Nada poderia ser pior para Pequim do que outros países seguirem o exemplo da Lituânia.  

Para a Lituânia, as ameaças e intimidações de Pequim não enfraqueceram a determinação do governo em relação à crise dos celulares chineses, em parte porque a China tem pouco poder sobre o Estado báltico. 

Em uma entrevista, Gabrielius Landsbergis, o ministro das Relações Exteriores, disse que o país tinha uma "política externa baseada em valores" de "apoio às pessoas que apoiam os movimentos democráticos".  

Outros países europeus que declaram fidelidade aos valores democráticos raramente têm agido sob eles em suas relações com a China. O partido do Landsbergis, entretanto, fez dessa polêmica parte de seu apelo aos eleitores domésticos; seu manifesto pré-eleitoral do ano passado incluiu uma promessa de "manter a espinha dorsal de valores" na política externa "com países como a China".  

O pequeno tamanho da Lituânia, lamentou o ministro das Relações Exteriores, "fez de nós um alvo fácil" para a China porque "seu cálculo é que é bom escolher os inimigos bem menores, atraí-los para o ringue de luta e depois espancá-los totalmente".  Ansioso para evitar ser espancado, Landsbergis visitou Washington este mês e se encontrou com o Secretário de Estado americano, Antony Blinken, que se comprometeu a "oferecer o apoio dos EUA à Lituânia diante da tentativa de coerção por parte da República Popular da China".  

Apesar de seu tamanho insignificante, a Lituânia é surpreendentemente grande nos cálculos chineses, disse Wu Qiang, um analista político em Pequim, em parte devido ao seu papel como corredor de trânsito para trens que transportam mercadorias da China para a Europa. 

O país, por outro lado,  também chama a atenção dos chineses por causa de seu papel importante no colapso da União Soviética, um drama que a China tem estudado na esperança de se livrar de forças centrífugas semelhantes em seu próprio quintal.

Em 1990, a Lituânia foi a primeira república soviética a declarar sua independência de Moscou.  "A China considera a Lituânia como um museu para se salvar de um colapso do tipo soviético", disse Wu.  

A fenda entre os dois países flui de muitas fontes, incluindo um impulso de Taiwan para reunir apoio político, bem como eleições lituanas no ano passado que levaram ao poder um novo governo de coalizão dominado pelo partido conservador pró-americano e que agrega também liberais que defendem os direitos humanos.  

Mas também reflete uma retaliação mais ampla contra a agressiva diplomacia de "guerreiros-lobos" da China em toda a Europa e o desencanto com o aumento das exportações chinesas que deixaram as importações da Europa muito atrás.  

Nos últimos anos, a China tem criado ressentimento por meio de um comportamento importunante que lembra a muitos lituanos das intimidações passadas protagonizadas por Moscou. 

Em 2019, diplomatas chineses organizaram um protesto beligerante para contrariar uma manifestação de cidadãos lituanos em apoio ao movimento democrático de Hong Kong. A intervenção chinesa levou a confrontos na Praça da Catedral de Vilnius.  

"Esta abordagem não conquista nenhum amigo", disse Gintaras Steponavicius, um ex-legislador que ajudou a criar um grupo de lobby, o Fórum de Taiwan. "Não estamos acostumados a que nos digam como devemos nos comportar, mesmo por uma superpotência".  Cansados da pressão de Pequim, políticos proeminentes se juntaram a um grupo em apoio a Taiwan no Parlamento e participaram de uma celebração do Dia Nacional de Taiwan em Vilnius, em outubro passado.

Nem todos apoiam a política do governo. Linas Linkevicius, um ex-ministro das Relações Exteriores, aponta que a Lituânia já tem relações estremecidas com a Rússia e a vizinha Belarus, cuja líder da oposição exilada, Svetlana Tikhanovskaya, opera a partir de Vilnius."Estamos expostos em demasiadas frentes", disse ele.

Pesquisas de opinião do Conselho Europeu de Relações Exteriores indicam que a maioria dos europeus não quer uma nova Guerra Fria entre os Estados Unidos e a China. Mas eles também mostram uma crescente desconfiança em relação à nação asiática.  

"Há uma mudança geral de sentimentos em relação aos acontecimentos", disse Frank Juris, pesquisador do Instituto Estoniano de Política Externa, que acompanha as atividades chinesas na Europa. "As promessas não se materializaram e os países estão cansados de serem constantemente ameaçados com o chicote".  Esse chicote agora está sendo lançado com força sobre a Lituânia, um membro da União Europeia e da OTAN.  

Mas particularmente irritante para Pequim foi anúncio da Lituânia, em julho, de que havia aceitado um pedido de Taiwan para abrir um "escritório de representação taiwanês" em Vilnius.  O Ministério das Relações Exteriores da China acusou a Lituânia de cruzar uma "linha vermelha" e a exortou a "corrigir imediatamente sua decisão errada" e a "não avançar mais no caminho equivocado".  

Muitos países, incluindo a Alemanha e a vizinha Letônia, têm escritórios semelhantes em Taiwan, mas para evitar irritar Pequim, os órgãos representam oficialmente Taipei, a capital de Taiwan, não Taiwan em si.  

E em maio, a Lituânia se retirou de um fórum diplomático que agrupa a China e 17 países da Europa Central e Oriental para promover a Belt and Road Initiative (BRI), um programa de infra-estrutura multibilionário do presidente chinês Xi Jinping.

Do ponto de vista da China, o lançamento na semana passada de um relatório sobre os telefones celulares fabricados no país pelo Centro de Segurança Cibernética do Ministério da Defesa da Lituânia foi mais uma provocação. O registro oculto encontrado pelo Centro permite a detecção e a censura de frases como "movimento estudantil", "independência de Taiwan" e "ditadura".  

A lista negra, que se atualiza automaticamente para refletir a evolução das preocupações do Partido Comunista, está inativa nos telefones exportados para a Europa, mas, de acordo com a investigação do Ministério da Defesa da Lituânia, a ferramenta de censura desativada pode ser ativada muito facilmente desde a China.  

O registro "é chocante e muito preocupante", disse Margiris Abukevicius, um vice-ministro da Defesa responsável pela segurança cibernética.  O fabricante dos telefones chineses em questão, Xiaomi, diz que seus dispositivos "não censuram as comunicações".  

Além de recomendar às agências governamentais o descarte dos telefones, Abukevicius disse em uma entrevista que os usuários comuns deveriam decidir "seu próprio apetite pelo risco".  

O Global Times, uma agência de notícias nacionalista controlada pelo Partido Comunista Chinês, ridicularizou o relatório lituano como um "novo truque" encabeçado por um pequeno "peão" da agenda anti-China de Washington.  

A China tem aumentado constantemente a pressão sobre a Lituânia desde então. No mês passado, retirou seu embaixador de Vilnius e exortou a enviada da Lituânia em Pequim a voltar para casa, o que ela fez. O país asiático ainda parou um trem de carga regular que dirigia-se para a Lituânia, embora ainda permita que outros trens transitem pelo país báltico cheios de mercadorias chinesas com destino à Alemanha.  

Apesar de não anunciar quaisquer sanções formais, a China acrescentou a burocracia para bloquear os exportadores lituanos de vender mercadorias na China. 

 

A ministra da economia da Lituânia, Ausrine Armonaite, minimizou os danos, argumentando que exportações da Lituânia para a China representaram apenas 1% do total das exportações. Perder isso, disse ela, "não é muito prejudicial".  

Um golpe maior, segundo os líderes empresariais, foi a interrupção no fornecimento de vidro chinês, componentes eletrônicos e outros itens necessários para os fabricantes lituanos.

 Cerca de uma dúzia de empresas que dependem de produtos da China na semana passada receberam cartas quase idênticas de fornecedores chineses alegando que os cortes de energia haviam dificultado o cumprimento dos pedidos. "Eles são muito criativos", disse Vidmantas Janulevicius, presidente da Confederação Lituana de Industriais, apontando ironicamente que os atrasos foram "direcionados com muita precisão". 

A Lituânia tomou "uma clara decisão geopolítica" para ficar decisivamente do lado dos Estados Unidos, um aliado de muitos ansos, e de outras democracias, disse Laurynas Kasciunas, presidente do comitê de segurança e defesa nacional. "Todos aqui concordam com isso. Todos nós somos muito anticomunistas. Está em nosso DNA". /TRADUÇÃO DE JORGE CARRASCO

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