REUTERS/Mark Blinch
REUTERS/Mark Blinch

Livre do Taleban - 5 anos de cativeiro envoltos em mistério

Canadense acusa radicais islâmicos de terem estuprado sua mulher e assassinado uma filha

O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2017 | 14h19
Atualizado 14 Outubro 2017 | 17h12

Ao desembarcar em seu país natal na sexta-feira 12, o canadense Joshua Boyle, de 34 anos, acusou integrantes do Taleban de estuprar reiteradamente sua mulher e assassinar sua filha mais nova. Ele e a americana Caitlan Coleman, de 31 anos, tiveram quatro filhos em 5 anos de cativeiro, em poder de um braço do grupo, a rede Haqqani. Boyle afirmou que a morte da criança e as violações ocorreram porque ele não aceitou uma oferta do Taleban.

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Na quarta-feira, soldados paquistaneses, orientados por informações da inteligência americana, atiraram contra os pneus de um carro que transportava o casal e três filhos, não muito tempo depois de o veículo ter cruzado a fronteira do Afeganistão com áreas tribais do Paquistão.

O dramático resgate respondeu a algumas indagações, mas levantou outras. A família chegou a Toronto na sexta-feira à noite, depois de Boyle ter se recusado a entrar num avião que os levaria para os EUA. O pai de Boyle disse ao que o filho não quis parar na base aérea de Bagram, no Afeganistão, onde tropas americanas são acusadas de praticar violências contra os prisioneiros. Ao chegar, ele sustentou que eles não embarcaram porque uma das crianças estava doente.

A recusa da família em retornar pelos EUA levou ex-autoridades americanas a especular sobre os motivos da ida do casal para o Afeganistão, há cinco anos. Pouco depois de se casarem, em 2011, Caitlan e Boyle estiveram na América Central. Em seguida, visitaram a Rússia e a Ásia Central. Em 2012, Caitlan estava grávida do primeiro filho quando os dois resolveram fazer uma excursão a pé, “como mochileiros” pela Província de Wardak, região perigosa ao sul de Cabul, dominada por milícias que vivem trocando escaramuças.

A decisão de visitar Wardak e a pouco comum história de vida de Boyle geraram muitas especulações na comunidade de inteligência dos EUA. Antes de casar com Caitlan, Boyle tinha sido casado com a irmã mais velha de Omar Khadr, canadense que em 2002 foi preso por tropas americanas no Afeganistão, acusado de ter ligações com a Al-Qaeda.

O patriarca da família Khadr foi morto em 2003, com integrantes da Al-Qaeda e do Taleban num choque com forças de segurança paquistanesas, perto da fronteira com o Afeganistão. A relação de Boyle com a família levou algumas autoridades de inteligência dos EUA a cogitar que a visita ao Afeganistão talvez fizesse parte de uma tentativa de aproximação com insurgentes pró-Taleban. Ao chegar ao Canadá, Boyle mantinha barba. Durante o voo, sua mulher usou o véu islâmico. 

Em vídeo divulgado em dezembro de 2016, Caitlan disse que a família estava vivendo um “pesadelo kafkiano”. “É só dar alguma coisa para os sequestradores. Assim você e eles saem ganhando e nós podemos ir embora deste lugar de uma vez por todas”, disse ela em vídeo endereçado ao então presidente Barack Obama.

A nova estratégia do governo Trump para o Afeganistão põe grande ênfase nas operações militares contra as forças do Taleban no Afeganistão, aumentando a pressão para que o Paquistão intervenha em áreas de seu território que servem de refúgio para o inimigo. O Paquistão preferiria um plano que priorizasse a negociações de paz com o Taleban. Pouco depois de Caitlan e Boyle terem sido resgatados, o presidente Donald Trump deu a entender que sua retórica agressiva teria contribuído para colocar Islamabad na linha. / W.POST e NYT

 

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