Livres do regime de Kadafi, líbios vão às urnas pela primeira vez desde 1954

Democracia em construção. Entusiasmo com a votação toma a capital, Trípoli, 260 dias após a morte do ditador que impôs as leis do país durante 42 anos; líderes tentam contornar disputas pelo poder, principalmente entre grupos laicos e religiosos

ANDREI NETTO , ENVIADO ESPECIAL / TRÍPOLI, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2012 | 03h07

Trípoli está empobrecida, Benghazi, insatisfeita e no Saara os conflitos armados e sangrentos ainda não cessaram. Os problemas econômicos, de segurança e de gestão na Líbia pós-Muamar Kadafi são enormes. Mesmo assim, é com orgulho que a população do país vai às urnas hoje pela primeira vez em 58 anos.

Entusiasmados e curiosos com a perspectiva de democracia, 80% dos cidadãos aptos a votar estão inscritos para a eleição legislativa de hoje, que definirá o primeiro governo eleito e uma inédita Assembleia Constituinte.

A votação vinha sendo preparada nos últimos 260 dias, desde a declaração de liberdade da Líbia, que se seguiu à execução de Kadafi em Sirte, em 20 de outubro. Nesse intervalo, a Líbia foi dirigida pelo Conselho Nacional de Transição (CNT), presidido por Mustafa Abdeljalil e gerenciado pelo primeiro-ministro Abdelharim Al-Kib. O primeiro tinha sua legitimidade contestada por ser ex-ministro da Justiça do regime, enquanto o segundo é malvisto por ser um intelectual que não teria participado ativamente da revolução iniciada em fevereiro de 2011.

É para substitui-los que 2,8 milhões de líbios vão às urnas hoje. Eles escolherão os 200 membros do Congresso Geral Nacional, que sucederá ao CNT. O Parlamento a seguir definirá o nome de um primeiro-ministro, que comandará o país durante a elaboração da Constituição, uma etapa para a escolha do futuro presidente da república.

"Estamos todos muito empolgados com as eleições. É um sonho para todos nós, líbios, que jamais tivemos a oportunidade de votar na vida", disse ao Estado o policial Fawzy Treesh, ex-funcionário da Petrobrás em Trípoli.

Nas ruas da capital, o entusiasmo é perceptível. Milhares de cartazes eleitorais foram espalhados pelas ruas, com slogans partidários e fotos dos candidatos. Ontem, sexta-feira, dia sagrado dos muçulmanos, a atmosfera era de festa na cidade em virtude das eleições, mas também pela disputa da final da Copa Árabe entre Líbia e Marrocos.

Nada menos que 3,7 mil candidatos disputam um lugar no Parlamento nas 72 circunscrições do país. Além disso, eles podem ou não representar partidos políticos, pois o sistema escolhido foi misto - 120 deputados serão escolhidos pelo voto direto, e outros 80 por listas eleitorais. O objetivo do método é evitar que um partido domine o Parlamento, como ocorreu na Tunísia e no Egito. Assim, um governo de coalizão deve ser necessário.

Essa missão caberá aos três partidos favoritos. Dois deles são moderados: o primeiro é o Partido da Justiça e da Reconstrução, que representa a Irmandade Muçulmana; e o segundo é a Aliança das Forças Nacionais, centrista e laico, liderado pelo revolucionário e ex-premiê do CNT Mahmoud Jibril. O terceiro é o Al-Watan, que reúne radicais islâmicos e tem como líder Abdelhakim Belhadj, ex-chefe militar de Trípoli.

Seja quem for o vencedor da eleição, o futuro premiê terá grandes desafios. O primeiro é político - vencer a desconfiança dos federalistas de Benghazi, um movimento minoritário, que lançou ataques contra sessões eleitorais para exigir a autonomia das três províncias: Tripolitânia, Cirenaica e Ferzan. Para convencê-los a participar da eleição, a cidade de Zawiyah abriu mão de oito assentos no Parlamento em favor de Benghazi.

Além da divisão política, será preciso superar os problemas econômicos e sociais. Nas ruas de Trípoli, o empobrecimento e a estagnação econômica são visíveis. A cidade está abandonada e cheia de lixo e dezenas de prédios inacabados relembram a era Kadafi. O maior desafio, porém, é a segurança pública. Por todo o país, as milícias rebeldes seguem ativas e armadas, enquanto a polícia e o Exército apenas começam a se organizar.

Uma pessoa foi morta ontem com um tiro quando viajava em um helicóptero que levava propaganda eleitoral para a região de Benghazi. Supõe-se que o crime esteja ligado às eleições.

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