AFP PHOTO / POOL / MARTIN BUREAU
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Livro acaba com chances de Hollande se reeleger na França

Em entrevistas usadas na publicação, presidente qualificou os juízes de ‘covardes’, abrindo crise institucional

Andrei Netto Correspondente / Paris, O Estado de S. Paulo

14 Outubro 2016 | 19h45

A publicação de um livro escrito com base em 61 entrevistas concedidas pelo presidente da França, François Hollande, a dois jornalistas do Le Monde, pode ter sepultado de vez sua candidatura à reeleição em 2017. Em mais de 100 horas de conversas gravadas, Hollande fez “confissões” que causaram um novo terremoto político em Paris, incluindo uma crise institucional com magistrados, que classificou de “covardes”. 

A crise foi aberta pela publicação do livro Un Président ne devrait pas dire ça (Um presidente não deveria dizer isso), escrito pelos jornalistas Gérard Davet e Fabrice Lhomme, do Le Monde. Em uma das passagens do livro, que tem mais de 600 páginas, Hollande é questionado sobre a Justiça na França e afirma: “Essa instituição é uma instituição covarde. É isso… Todos esses procuradores e altos magistrados se escondem, fazem papel de virtuosos. Eles não gostam da política”.

Diante da reação da classe, da crise institucional aberta e da péssima repercussão das declarações, Hollande foi obrigado nesta sexta-feira, 14, a pedir desculpas formais à União Sindical dos Magistrados (USM), em uma carta aberta. “As declarações não têm relação com a realidade do que eu penso, nem com a linha de conduta e da ação que eu fixei como presidente da república”, afirmou. “Lamento profundamente que essa declaração tenha sido percebida como uma ferida pelos magistrados.”

Apesar das desculpas públicas, o abalo político não passou. Já pressionado pela baixíssima popularidade e pelas pesquisas de opinião que o colocam na quarta posição para as eleições de março e abril de 2017, Hollande não consegue mais convencer nem mesmo uma parte do Partido Socialista (PS), que busca uma alternativa. 

O nome do atual primeiro-ministro, Manuel Valls, voltou a ser cogitado como potencial candidato à presidência, no lugar de Hollande.  Ainda ontem, o presidente da Assembleia Nacional, o socialista Claude Bartolone, lamentou a posição do chefe de Estado. “Um presidente não deve se confessar tanto. O dever de silêncio faz parte de sua função”, afirmou. 

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