Jonathan Drake/Reuters
Jonathan Drake/Reuters

Livro conta bastidores da covid de Trump: saturação a 93 e temor na Casa Branca

Doença do presidente americano era mais severa do que a Casa Branca havia admitido na época e conselheiros achavam que isso alteraria a resposta dele à pandemia

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2021 | 05h00

Este artigo é uma adaptação tirada do livro Nightmare Scenario: Inside the Trump Administration’s Response to the Pandemic That Changed History (Cenário de pesadelo: por dentro da resposta do governo Trump à pandemia que mudou a história, em tradução livre), que será publicado nos Estados Unidos no dia 29 de junho pela editora HarperCollins. 

O telefone do secretário de Saúde e Serviços Humanos, Alex Azar, tocava com um pedido urgente: será que ele poderia ajudar alguém na Casa Branca a obter um tratamento experimental contra o coronavírus, conhecido como anticorpo monoclonal?

Se Azar pudesse conseguir a medicação, o que a Casa Branca precisaria fazer para que isso acontecesse? Azar pensou por um momento. Era dia 1º de outubro de 2020, e o medicamento ainda estava em fase de testes clínicos. A agência reguladora Food and Drug Administration (FDA) teria que abrir uma exceção de “uso compassivo” para seu uso, já que ele ainda não estava disponível ao público. Apenas cerca de 10 pessoas até o momento o haviam utilizado fora desses testes. Azar disse que claro que ajudaria. 

Não contaram para Azar para quem era a medicação, mas ele depois ligaria os pontos. A paciente era uma das conselheiras mais próximas do presidente Donald Trump: Hope Hicks. 

Pouco tempo depois, o comissário da FDA Stephen Hahn recebeu um pedido de um alto oficial da Casa Branca para um caso separado, desta vez com ainda mais urgência: será que ele poderia fazer com que a FDA assinasse uma autorização de uso compassivo para um anticorpo monoclonal imediatamente? Existe um processo padrão que médicos usam para submeter à FDA pedidos de uso de medicamentos não aprovados em pacientes com doenças de risco de vida que já tentaram todas as outras opções, e cientistas da agência o revisam. A diferença era que a maioria das pessoas não ligam diretamente para o comissário. 

A Casa Branca queria que Hahn dissesse “sim” dentro de horas. Hahn, que ainda não sabia para quem era o pedido, consultou oficiais de carreira. A FDA precisa seguir as regras, os oficiais insistiram. Hahn repassou a mensagem à Casa Branca. Eles continuaram o pressionando a, efetivamente, cortar caminho. Não, nós não podemos fazer isso, Hahn respondeu várias vezes. Estamos falando sobre a vida de alguém. Nós temos que realmente examinar o pedido para ter certeza de que estamos fazendo isso de forma segura. 

Quando Hahn depois descobriu que o esforço era pelo presidente, ele ficou sem reação. Pelo amor de Deus, ele pensou, é o presidente quem está doente, e vocês querem que a gente contorne as regras? Trump estava na categoria de maior risco para doença severa causada por covid-19 – aos 74 anos, ele raramente se exercitava e era considerado clinicamente obeso. Ele era o tipo de paciente com quem você iria querer tomar todo o cuidado possível. Assim como fazia com todos os pedidos de uso compassivo, a FDA tomou uma decisão dentro de 24 horas. Oficiais da agência correram para entender que anticorpo monoclonal de qual empresa seria o mais apropriado, dadas as informações clínicas que eles tinham, e selecionaram o da farmacêutica Regeneron, conhecido simplesmente como Regen-Cov.

Um período de cinco dias em outubro de 2020 – do momento em que oficiais da Casa Branca partiram em um esforço extraordinário para conseguir medicamentos emergenciais para o Trump até o dia em que o presidente saiu do hospital e voltou à Casa Branca – marcou um ponto de virada dramático na resposta agitada da nação ao coronavírus. O adoecimento grave de Trump e a perspectiva de morte pegaram a Casa Branca tão despreparada que eles nem instruíram o time do vice-presidente Mike Pence com um plano de empossá-lo caso Trump ficasse incapacitado. 

Por meses, o presidente havia zombado e se esquivado do vírus, desprezando protocolos de segurança ao promover grandes comícios e enchendo a Casa Branca de convidados sem máscara. Mas a apenas um mês das eleições, o vírus que já havia matado mais de 200 mil americanos havia acometido a pessoa mais poderosa do planeta. 

Os conselheiros médicos de Trump esperavam que sua crise com o coronavírus, que era muito mais séria do que divulgado na época, o inspiraria a levar o vírus a sério. Talvez agora, eles pensaram, ele incentivaria os americanos a usarem máscaras e colocaria seus oficiais médicos e de saúde à frente da resposta. Em vez disso, Trump saiu da experiência triunfante e ainda mais afrontoso. Ele pediu às pessoas que não ficassem com medo do vírus ou o deixassem dominar suas vidas, desconsiderando que ele tinha acesso a assistência médica e tratamentos indisponíveis a outros americanos. 

Aquela era, vários conselheiros disseram, a última chance de inverter a resposta. E quando a oportunidade passasse, seria um ponto sem volta. 

Um presidente doente

A semana que levou à infecção de Trump estava agitada, mesmo para seus padrões. No sábado, 26 de setembro, ele havia promovido uma festa com dezenas de convidados para anunciar Amy Coney Barrett como sua escolhida para ser juíza da Suprema Corte. As comemorações continuaram do lado de dentro, mas o desprezo de Trump por proteções faciais já havia se tornado uma conduta extraoficial da Casa Branca. Quando assistentes usavam máscaras em sua presença, ele inclusive pedia para que eles as retirassem. Se alguém fosse fazer uma coletiva de imprensa com ele, ele deixava claro que a pessoa não deveria usar máscara ao seu lado. 

No dia seguinte à comemoração da Suprema Corte, Trump também recebeu famílias de militares na Casa Branca. Por insistência de Trump, poucos estavam de máscara, mas eles estavam todos próximos demais para seu gosto. Ele não estava preocupado que outros ficassem doentes, mas se inquietava com sua própria vulnerabilidade e reclamou para sua equipe depois. Por que estavam deixando que as pessoas chegassem tão perto dele? Se encontrar com as famílias de Estrela Dourada (parentes próximos de militares que morreram em combate) era triste e tocante, ele disse, mas completou, “Se esses caras tiveram covid, eu vou pegar porque eles estavam todos perto de mim.” Ele disse à sua equipe que eles precisavam cumprir melhor o trabalho de cuidar dele. 

Dois dias depois disso, ele viajou para Cleveland, no Estado de Ohio, para o primeiro debate presidencial contra seu desafiante Democrata, Joe Biden. Trump esteve errático durante a noite toda e pareceu se deteriorar conforme o tempo foi passando. As análises dos especialistas foram brutais.

Quase 48 horas depois, Trump adoeceu terrivelmente. Horas depois de tuitar o anúncio de que ele e a primeira-dama Melania Trump haviam contraído coronavírus, o presidente iniciou uma rápida espiral descendente. Sua febre subiu abruptamente, e seu nível de oxigênio no sangue caiu abaixo de 94%, em certo ponto chegando na casa dos 80%. Sean Conley, o médico da Casa Branca, atendeu o presidente ao lado de sua cama. Trump recebeu oxigênio numa tentativa de se estabilizar. 

Os médicos deram a Trump uma dose de oito gramas de dois anticorpos monoclonais através de um tubo intravenoso. Esse tratamento experimental era o que havia requerido a assinatura da FDA. Ele também recebeu a primeira dose do medicamento antiviral remdesivir, também por IV. Essa medicação havia sido autorizada para uso mas ainda era difícil de conseguir para muitos pacientes porque estava com pouco estoque. 

Tipicamente, médicos espaçam tratamentos para medir a resposta do paciente. Alguns medicamentos, como os anticorpos monoclonais, são mais eficazes se forem administrados logo no começo de uma infecção. Outros, como o remdesivir, funcionam melhor quando são dados mais tarde, depois que o paciente já está em estado crítico. Mas os médicos de Trump jogaram tudo o que puderam no vírus ao mesmo tempo. A condição dele pareceu se estabilizar conforme passou o dia, mas seus médicos, ainda receosos de que ele talvez precisasse usar um respirador, decidiram levá-lo ao hospital. À essa altura, ficar na Casa Branca era muito arriscado. 

Muitos dos oficiais da Casa Branca e até seus conselheiros mais próximos foram deixados no escuro sobre sua condição. Mas depois que eles acordaram e viram as notícias – muitos estavam dormindo quando Trump tuitou à 1 da manhã da sexta-feira que ele havia contraído o vírus – oficiais do Gabinete e assistentes fizeram fila na Casa Branca para serem testados. Um grande número deles havia se encontrado com ele na semana anterior para informá-lo sobre várias questões ou tinha viajado com ele para o debate. 

Não estava claro nem para os assistentes mais próximos de Trump o quão doente ele estava. Estaria ele com uma doença leve, como ele e Conley diziam, ou muito mais doente do que eles sabiam? Trump deveria participar de uma ligação com representantes de casas de repouso mais tarde naquele dia como parte de sua agenda oficial. Oficiais haviam marcado de fazer isso presencialmente da Casa Branca, mas naquela manhã foram informados de que a ligação seria feita remotamente. Assistentes de Trump insistiram que ele ainda participaria. 

Enquanto uma assistente esperava na fila para fazer o teste de coronavírus, ela viu Conley sair correndo de seu escritório com uma feição de pânico. Isso é estranho, a assistente pensou. Uma ou duas horas depois, oficiais foram informados que Pence participaria da ligação das casas de repouso. Trump não conseguiria. 

“Como um milagre”

A condição de Trump piorou na manhã de sábado. Seus níveis de oxigênio no sangue caíram para 93% e ele recebeu o potente anti-inflamatório dexametasona, que geralmente é administrado se uma pessoa está extremamente doente (o nível considerado normal de oxigênio no sangue é entre 95 e 100%). Acreditava-se que o medicamento melhorava a chance de sobrevivência de pacientes de coronavírus que estavam recebendo oxigênio suplementar. O presidente estava em uma série atordoante de medicações a essa altura – tudo ao mesmo tempo. 

Ao longo da estadia de Trump no hospital, seus médicos consultaram especialistas médicos da força-tarefa contra o coronavírus da Casa Branca que o presidente havia descartado havia tempo. Eles conversaram com Hahn, com o diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas  (NIAID) Anthony Fauci e com o diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) Robert Redfield, em busca de opiniões sobre seu tratamento. 

Trump e seus assistentes haviam ignorado vários alertas dos médicos da força-tarefa de que eles estavam se colocando, junto de todo mundo na Ala Oeste da Casa Branca (onde fica o escritório do presidente), em risco com seu comportamento arrogante. Ao longo dos últimos oito meses, Trump havia ficado perigosamente perto do vírus em várias ocasiões. Esses frequentes deslizes haviam tornado a Casa Branca mais descuidada, constantemente provocando o destino. Deborah Birx, coordenadora da força-tarefa da Casa Branca, e Redfield escreveram a assistentes superiores depois de cada surto na Casa Branca, alertando que o prédio na 1600 Pennsylvania Avenue em Washington não estava seguro. Birx levou suas preocupações diretamente a Pence. Isso é perigoso, ela o alertou. Se a equipe da Casa Branca não pode ou não quer usar máscaras, eles têm que ficar a pelo menos três metros de distância um do outro. Isso é simplesmente muito arriscado. 

Seus alertas haviam sido ignorados e agora havia um preço a pagar. Trump não queria ir ao hospital, mas seus assistentes haviam explicado a escolha: ele poderia ir ao hospital na sexta, enquanto ele ainda conseguia andar sozinho, ou ele poderia esperar até mais tarde, quando câmeras poderiam filmá-lo em uma cadeira de rodas ou maca. Aí não teria como esconder sua condição. 

Ao menos dois dos que foram informados sobre a condição médica de Trump naquele fim de semana disseram que ele estava gravemente acometido e temiam que ele não conseguiria sair do centro médico Walter Reed. Pessoas próximas ao chefe de equipe do Trump. Mark Meadows, disseram que ele estava consumido pelo medo de que o presidente morresse. 

Não estava claro se um dos medicamentos, ou a combinação deles, ajudou, mas na tarde de sábado a condição de Trump havia começado a melhorar. Uma das pessoas familiares com as informações médicas de Trump estava convencida de que os anticorpos monoclonais eram os responsáveis pela melhora rápida do presidente. 

Ao longo do sábado, 3 de outubro, um inquieto Trump fez uma série de ligações para medir como sua hospitalização estava sendo recebida pelo público. Muito provavelmente, o anti-inflamatório que ele estava tomando havia lhe dado uma explosão de energia, embora ninguém soubesse quanto tempo duraria. Talvez motivado por isso, Trump continuou a postar no Twitter de dentro do hospital, ansioso para transmitir a imagem de que ele estava bem e ocupado. Em certo ponto, Trump até mesmo ligou para Fauci para discutir sua condição e compartilhar sua avaliação pessoal dos anticorpos monoclonais que ele havia recebido. Ele disse que era milagroso o quão rápido eles fizeram com que ele se sentisse muito melhor. 

“Isso é como um milagre”, Trump contou a seu conselheiro de campanha Jason Miller  em outra ligação do hospital. “Não vou mentir. Eu não estava me sentindo bem.”

Esperando por um sinal

Redfield passou o fim de semana em que Trump esteve doente rezando. Ele rezou para que o presidente se recuperasse. Ele rezou para que ele saísse da experiência com uma nova avaliação da seriedade da ameaça. E ele rezou para que Trump dissesse aos americanos que eles deveriam ouvir especialistas de saúde pública antes que fosse tarde demais. O vírus havia começado uma ressurgência violenta. Redfield, Fauci, Birx e outros sentiam que eles tinham um tempo limitado para persuadir a população a se comportar de forma diferente se eles quisessem evitar uma onda massiva de mortes. 

Haviam poucos sinais naquele fim de semana de que Trump mudaria sua opinião. Já havia sido uma luta para fazer com que ele concordasse em ir ao hospital Walter Reed em primeiro lugar. Agora, ele estava atormentando Conley e outros a deixá-lo voltar para casa mais cedo. Redfield soube que Trump estava insistindo em ser liberado e ligou para Conley. O presidente não pode ir para casa tão cedo, Redfield aconselhou o médico. Ele era um paciente de alto risco, e não havia nenhuma garantia de que ele não teria uma recaída ou alguma complicação. (Muitos dos pacientes de covid-19 aparentavam estar melhorando e aí rapidamente pioravam.) Trump precisava permanecer no hospital até que o risco passasse. Conley concordou mas disse que o presidente já havia se decidido e não seria convencido do contrário. 

Se eles não conseguiam mantê-lo no hospital, os conselheiros esperavam que Trump ao menos sairia do Walter Reed como um homem mudado. Alguns até mesmo começaram a se preparar mentalmente para finalmente dizer o que pensavam. Certamente seria o ponto de virada, todos pensaram. Não há nada como uma experiência de quase-morte para servir como alerta. No fim das contas, era uma falha da segurança nacional. O presidente não havia sido protegido. Se esse fiasco não fosse o ponto de virada, o que seria?

Assim como o país havia assistido alguns dias antes, muitas pessoas acompanharam novamente enquanto Trump pegou o helicóptero presidencial  Marine One de volta para o Gramado Sul da Casa Branca na noite de segunda-feira. Elas o viram descer em um terno azul-marinho, camisa branca e gravata listrada azul, com uma máscara cirúrgica no rosto. Ele andou ao longo do gramado antes de subir os degraus até a varanda Truman. 

Mas Trump não entrou. Era um momento de teatro político bom demais para deixar passar – tão impregnado de triunfo quanto sua viagem na sexta-feira havia sido um momento de humildade. Ele se virou do centro da varanda e olhou para trás em direção ao Marine One e às câmeras de televisão. Ele claramente estava respirando com dificuldade depois da longa caminhada e de subir as escadas. 

Redfield assistia pela televisão em casa. Ele rezava enquanto Trump subia os degraus. Rezava que ele chegaria à varanda Truman e mostraria alguma humildade. Que ele lembraria às pessoas de que qualquer um está suscetível ao coronavírus – até mesmo o presidente, a primeira-dama e seu filho. Que ele agora diria a eles como poderiam proteger a si mesmos e às pessoas que amam. 

Mas Trump não vacilou. Encarando as câmeras da varanda, ele usou a mão direita para tirar a alça da máscara de sua orelha direita, e então levantou a mão esquerda para tirar a máscara de seu rosto. Ele estava bastante retocado, sua face mais laranja do que nas fotos do hospital. Os rotores do helicóptero ainda giravam. Ele enfiou a máscara em seu bolso direito, como se estivesse descartando o acessório de uma vez por todas, e levantou as duas mãos com os polegares em sinal de positivo. Ele provavelmente ainda estava contagioso, parado ali na frente do mundo inteiro. Ele fez uma saudação militar enquanto o helicóptero deixava o Gramado Sul, e então caminhou para dentro da Casa Branca, passando por membros da equipe e falhando em protegê-los de partículas do vírus emitidas de seu nariz e boca. 

Ali mesmo, Redfield sabia que havia acabado. Trump mostrou naquele momento que ele não havia mudado nem um pouco. A resposta à pandemia também não mudaria./ WASHINGTON POST

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