Jonathan Ernst/Reuters
Jonathan Ernst/Reuters

Livro da sobrinha de Trump pode estragar a imagem da família

Mary Trump conta sobre 'relacionamentos destrutivos' e a relação do atual presidente com o irmão, pai dela, que morreu de alcoolismo

Michael Kranish, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2020 | 03h30

WASHINGTON - Foi um raro momento de confissão: no ano passado, o presidente Donald Trump disse ao The Washington Post que se arrependia da maneira como tratara seu irmão mais velho, Fred Jr., que morrera de alcoolismo. Mas, na ocasião, o presidente garantiu que a disputa financeira com os filhos de seu falecido irmão havia sido resolvida de maneira amigável, dizendo: “Todos nós nos damos muito bem”.

Mas, agora, a sobrinha de Trump - filha de Fred Jr. - escreveu um livro que será publicado em julho e pode explodir a imagem dos Trump como família unida.

Em uma descrição do livro postada na Amazon na noite da segunda-feira 15, diz-se que Mary Trump, psicóloga, narra um "pesadelo de traumas, relacionamentos destrutivos e uma trágica combinação de negligência e abuso". "Ela explica como eventos específicos e padrões gerais da família criaram o homem perturbado que atualmente ocupa o Salão Oval, entre eles a estranha e dolorosa relação entre Fred Trump com seus dois filhos mais velhos, Fred Jr. e Donald".

Mary Trump planeja revelar as rusgas que há muito tempo fervem dentro da família, mas que até agora ficaram mascaradas por acordos de confidencialidade e pela baixa visibilidade pública dos irmãos do presidente, informou o Daily Beast no domingo 14.

O livro também traz o relato de Mary Trump sobre suas conversas com a irmã de Donald Trump, ex-juíza Maryanne Trump Barry, que não é lisonjeira ao falar sobre o irmão, de acordo com o Daily Beast. Mary, que no ano passado recusou uma entrevista ao The Washington Post para falar sobre a morte de seu pai, não respondeu a um pedido de comentário.

Uma porta-voz da editora Simon & Schuster confirmou que o livro será publicado em 28 de julho, mas não quis dar outras declarações. Maryanne, contatada por telefone, também se recusou a falar. A Casa Branca não respondeu a um pedido de comentário.

Tensões em evidência 

O livro de Mary Trump, se for tão crítico quanto esperado, pode ser um marco da relação dos três irmãos vivos do presidente e dos membros da família extensa, que em grande medida evitavam fazer comentários sobre ele e se mantiveram fora dos holofotes. Sua publicação ameaça pôr em evidência as tensões internas da família Trump meses antes das eleições de novembro.

“Eles podem até ser polidos, mas a personalidade de Donald é de domínio, e isso inclui sua família”, disse Jack O'Donnell, ex-executivo dos cassinos de Trump. “Não é divertido para ninguém”.

Parte do atrito parece resultar de uma batalha pela fortuna da família que eclodiu após a morte de Fred Trump Jr.

Fred Jr., irmão mais velho do presidente, se formou nas instalações de treinamento da TWA em Kansas City, Missouri, e por um breve período voou como copiloto. Ele morreu de alcoolismo em 1981, aos 42 anos. Seus filhos, Fred III e Mary, pensaram que um dia receberiam o que acreditavam ser a parte justa do pai na riqueza da família.

Mas, 18 anos depois, quando Fred pai morreu, Donald Trump e seus irmãos fizeram de tudo para ficar com a maior parte do dinheiro, de acordo com registros de tribunal. Fred III e Mary processaram outros membros da família Trump em 2000, alegando que seus parentes haviam convencido o pai de Donald Trump a alterar o testamento.

Donald Trump cortou os pagamentos das empresas da família que eram usados para cuidar do filho de Fred III, William, que tinha paralisia cerebral.

Na época, Trump disse ao New York Daily News que “quando (Fred III) nos processou, nós falamos: ‘Por que nós temos que dar assistência médica para ele?’”.

Fred III disse nos documentos do tribunal que “minha tia e tios não pensaram duas vezes antes de cortar a assistência do meu filho, que tem uma condição grave, na tentativa de me convencer a abandonar minhas reivindicações ao testamento”.

“Você tem que ser duro com essa família”, disse Fred III ao Daily News na época. “Acho que tenho o que meu pai não tinha. Vou manter meu exército no campo de batalha. Estou lutando pelo que acho que é certo. Essas pessoas não são calorosas nem inocentes. Nunca vieram ver William no hospital. Nossa família acha que a ‘alegria’ é uma coisa disfuncional”.

Fred III, que não foi encontrado para comentar na segunda-feira 15, não falou publicamente sobre o assunto desde que o caso foi resolvido de maneira confidencial.

Na época, Mary disse ao Daily News que estava furiosa com a maneira como os tios tratavam sua família e seu irmão.

“Conhecendo a família, seria totalmente ingênuo dizer que não tem nada a ver com dinheiro”, disse Mary Trump. “Mas, para mim e para meu irmão, tem muito mais a ver com o reconhecimento de nosso pai. Ele existiu, viveu, era o filho mais velho. E William é neto de meu pai. Ele também faz parte da família, como qualquer outra pessoa. E precisa desesperadamente de cuidados especiais”.

Investigação

De acordo com o Daily Beast, Mary Trump foi a principal fonte de uma investigação de 2018 do The New York Times sobre a maneira como Donald Trump recebeu centenas de milhões de dólares da empresa de negócios imobiliários da família. O New York Times não quis comentar.

O presidente Trump tentou encobrir as disputas internas da família. No ano passado, quando The Post lhe perguntou sobre a briga com seu sobrinho, ele minimizou o custo com os cuidados da paralisia cerebral de William Trump. “Uma criança estava passando por um momento difícil”, disse Trump. “Foi uma coisa infeliz. Deu tudo certo, todos nós nos damos muito bem”.

Ao falar da morte do irmão com The Post, Trump disse que se arrependia de suas críticas constantes a Fred Jr. por tentar ser piloto da TWA em vez de cuidar dos negócios da família. Ele se lembrou de que certa vez dissera ao irmão mais velho: “Você está desperdiçando seu tempo”. Seu pai repreendia Fred Jr. por querer ser nada mais do que “um chofer no céu”.

“Eu me arrependo de ter botado pressão nele”, disse Trump. Administrar os negócios da família “era uma coisa que ele nunca ia querer” fazer. “Simplesmente não era coisa para ele (...). Acho que o erro que cometemos foi achar que todo mundo ia gostar de fazer essas coisas”.

Anos antes, Fred Trump Jr. tinha ajudado Donald quando ele tentara se transferir da Fordham University para a Wharton, a escola de administração da Universidade da Pensilvânia. Fred Jr. era amigo íntimo de um diretor da Penn, James Nolan, que no ano passado contou ao The Post que entrevistara Donald Trump no processo de admissão.

Ao contrário da afirmação de Donald Trump de que a Penn era uma das escolas mais difíceis do país, o que provaria que ele era um “gênio”, Nolan disse que mais da metade dos candidatos foram admitidos e que “não era muito difícil”.

Durante a disputa pela herança, Donald Trump confiou especialmente em seu irmão mais novo, Robert, que serviu como porta-voz dos irmãos nos documentos judiciais. Na luta contra o esforço de Fred III para obter apoio para o filho com paralisia cerebral, Robert Trump escreveu que a família havia fornecido apoio financeiro “da bondade de nossos corações” e repassado a Fred III US $ 200 mil anualmente, mesmo que ele não tivesse levantado “um dedo” pelo dinheiro.

Mesmo que Robert Trump tenha sido representante de Donald Trump no processo judicial, ele teve seus próprios confrontos com o irmão, de acordo com O'Donnell, ex-executivo de cassinos de Atlantic City que trabalhou com os dois. Em Trumped!, seu livro de memórias, O'Donnell escreveu que Donald Trump contratara Robert para ajudar a administrar seus cassinos, os quais estavam afundando na época.

Quando Donald Trump reclamou durante uma reunião com seus executivos de cassino, dizendo “vamos perder uma fortuna”, Robert respondeu: “Donald, você sabe que não tem como prever essas coisas”, de acordo com O'Donnell.

Trump ficou furioso com o irmão e disse: “Não vou ouvir você nessa, de jeito nenhum. Fui ouvir você e você me meteu nessa”, de acordo com O'Donnell. Robert Trump disse: “Vou embora. Não preciso disso”, escreveu O'Donnell. Donald Trump, em entrevista para Trump Revealed, a biografia do The Post, disse que seu irmão “nunca foi embora” e fez um “trabalho muito bom”.

O'Donnell disse em entrevista na segunda-feira que Donald Trump promove a “imagem de uma família forte e leal”, até mesmo entre seus pais, filhos e irmãos. Embora O'Donnell tenha dito que Robert se dá bem com Donald Trump, ele acha que as brigas no cassino Taj Mahal “mudaram para sempre” a relação entre os dois.

Robert Trump, que não pôde ser encontrado para comentar, parece nunca ter falado publicamente sobre o que aconteceu em Atlantic City. Em 2016, ele disse ao New York Post: “eu apoio Donald mil por cento. Acho que ele está fazendo um ótimo trabalho. Acho que recebeu uma ótima mensagem”. Ele e Donald foram fotografados aos abraços na noite da eleição.

The Post informou no ano passado que uma empresa na qual Robert Trump tem participação financeira recebera um contrato federal de US $ 33 milhões.

Maryanne Trump Barry, irmã do presidente, renunciou no ano passado ao cargo de juíza federal, após uma investigação sobre possíveis violações das regras de conduta judicial relacionadas ao seu papel nas práticas fiscais da empresa da família.

A investigação, lançada após uma reportagem investigativa do The Times sobre as finanças da família Trump, tornou-se objeto de debate quando ela renunciou. Trump chegou a brincar certa vez, dizendo que estava pensando em colocá-la na Suprema Corte. Ela falou pouco sobre o irmão durante sua presidência.

A outra irmã de Trump, Elizabeth Grau, ex-assistente administrativa do Chase Manhattan Bank, manteve um perfil discreto ao longo de toda a presidência de seu irmão. Ela não pôde ser encontrada para comentar. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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