Livro de vítima denuncia astro da BBC

Escritora britânica revela como apresentador Savile, morto em 2011, usava sua fama para aproximar-se e abusar sexualmente de crianças

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2012 | 03h03

Uma vítima de violência sexual transformada em escritora de best sellers autobiográficos na Grã-Bretanha é um dos pivôs do escândalo que está arruinando a imagem de alguns dos ícones da TV britânica. Karin Ward, uma das autoras da denúncia de abuso sexual contra o apresentador Jimmy Savile, conta em livro o modus operandi da estrela da BBC - um pedófilo que se valia da fama e do poder para praticar seus crimes com a certeza da impunidade.

Nascida no condado de Norfolk, no leste da Grã-Bretanha, Karen Eddolls, seu nome de nascimento, hoje com 54 anos, foi vítima de crimes sexuais muito antes de que sua vida se cruzasse com a de Savile. Abandonada pelo pai, que jamais conheceu, ela passou a infância sofrendo abusos do padrasto. A narrativa lhe rendeu seu primeiro livro, Keri - A história chocante de uma criança abusada, publicado em março sob o pseudônimo de Kat Ward.

O sucesso lhe encorajou a continuar suas denúncias. Seu novo livro, Keri Karin - A história chocante de uma criança abusada continua, lançado no dia 8, traz detalhes de sua adolescência igualmente problemática. Expulsa de uma internato aos 12 anos por bater em uma colega, Karin passou a circular por escolas e centros de assistência a jovens em situação de risco. Em um desses, a Garfield House, conheceu Jimmy Savile, então o apresentador de TV mais famoso da BBC, altruísta célebre e habitué dos centros de recuperação de adolescentes, aos quais prestava solidariedade e apoio financeiro.

O contato entre os dois, porém, só se estreitaria dois anos mais tarde, quando Karin, então com 14 anos, vivia na Duncroft Approved School for Girls, uma casa de detenção para meninas situada no condado de Surrey, no sudoeste de Londres. Ainda mais famoso, Savile chegava para suas visitas em seu Rolls-Royce branco e encontrava-se com a direção da escola, da qual passou a receber autorizações para passear com meninas cuja idade média era de 14 anos.

O que se passou a seguir, Karin revelou pela primeira vez ao grande público durante uma entrevista concedida ao programa Panorama, da BBC, que produziu um documentário sobre as suspeitas de crimes sexuais cometidos pelo apresentador, morto em outubro de 2011, aos 84 anos - sem jamais ter prestado contas à Justiça. "Ele me pedia para fazer coisas… Me pedia para fazer sexo oral. Me prometeu que, se eu fizesse sexo oral, ele arranjaria para que minhas amigas e eu fôssemos a seu programa de televisão", contou. "Eu tinha 14 anos! É claro que eu queria ir para o estúdio de TV! Eu achava nojento, mas eu fiz." Em outro trecho da entrevista, Karin revela toda sua amargura. "Eu não consigo acreditar que fiz tais coisas, que permiti que tais coisas acontecessem", diz ela.

O depoimento da escritora poderia se tornar um furo de reportagem por parte da BBC se a emissora britânica, uma das mais respeitadas do mundo, não tivesse decidido cancelar a veiculação do programa. Foi preciso que um ano se passasse e uma emissora concorrente, a ITV, produzisse um novo documentário para que o escândalo, enfim, viesse à tona. No programa Exposure: O outro lado de Jimmy Savile, um ex-investigador, Mark Williams-Thomas, buscou novos testemunhos sobre os crimes do apresentador da BBC.

O programa e o escândalo sexual que revelava vieram a público em setembro, confirmando os boatos sobre Savile que circulavam no meio jornalístico britânico havia pelo menos 15 anos.

Nos últimos 40 dias, os depoimentos sobre os abusos sexuais cometidos pelo apresentador não param de ser colhidos pela polícia britânica, que na quinta-feira estimou em 300 as vítimas da estrela de TV. Vincent Nichols, um líder da Igreja Católica britânica, pediu ontem que o Vaticano anule um título concedido a Savile em 1990 pelo papa João Paulo II por suas ações de caridade.

Os indícios de crimes são chocantes. Além de vítimas, vários ex-funcionários da BBC têm revelado o outro lado de Savile, um homem pervertido, descrito como obcecado por jovens na faixa dos 12 aos 15 anos, uma personalidade carismática que usava seu poder para colecionar virgens na alcova de seu camarim.

Tratava-se, dizem seus detratores, de um apresentador que usava seus programas e contribuía para instituições de caridade em busca de oportunidades para contatar, atrair, seduzir e abusar de crianças e adolescentes. "Todo mundo sabia que ele estava constantemente em companhia de garotas muito jovens", disse à ITV Wilfred De'Ath, ex-produtor da BBC que flagrou o astro com uma menina de 12 anos quando trabalhava na empresa. Nenhum desses indícios, porém, impediu que Savile tivesse passado a vida impune, aparecendo em festividades entre autoridades como os príncipes Charles e Diana.

Karin vem fazendo novas revelações, agora sobre a participação de outros astros da TV britânica, como o cantor e compositor Gary Glitter e o comediante Freddie Starr, nos crimes cometidos por Savile. As denúncias sugerem a existência de uma rede de pedofilia envolvendo estrelas da TV britânica. Encurralada pelas denúncias, a BBC repetiu ao Estado estar "horrorizada pelas alegações", mas não fala mais do que isso.

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