Livro revela pressão dos EUA sobre Annan por causa do Iraque

Fred Eckhart, porta-voz do ex-secretário-geral, narra ao ?Estado? depressão e stress a que ganense foi submetido

Jamil Chade, GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

16 de maio de 2009 | 00h00

Um secretário-geral das Nações Unidas sofrendo de depressão, literalmente sem voz, ausente de reuniões e envolvido em escândalos. Esse é o roteiro do drama vivido pelo ganense Kofi Annan nos últimos anos de uma década no comando da diplomacia da ONU. Abalado pela decisão dos EUA de invadir o Iraque, seguida pela morte, em Bagdá, em 2003, do enviado especial e amigo pessoal Sérgio Vieira de Mello, e depois por denúncias de corrupção, Annan deu sinais de que abandonaria o cargo.As revelações são de Fred Eckhart, que por oito anos foi o porta-voz de Annan na ONU e publicou sexta-feira o livro de memórias Kofi Annan sobre o primeiro africano a liderar o órgão. Em entrevista ao Estado, Eckhart revela como o secretário-geral da ONU entrou em rota de colisão com o governo americano por causa do Iraque. Annan tinha recebido aval da Casa Branca para comandar a organização em substituição ao egípcio Boutros-Boutros Ghali, cujo mandato à frente da ONU foi considerado "desastroso" por Washington. Annan, porém, também acabou sendo alvo de ataques. "Quem enfrenta os EUA sabe que sofrerá retaliações e foi isso o que ocorreu", contou Eckhart. Com base em mais de cem entrevistas e na convivência diária com Annan, o ex-porta-voz aponta que o africano ficou preocupado com a divisão criada na comunidade internacional pela política unilateral imposta por George W. Bush. "Annan viu a Carta da ONU ser rasgada na sua cara", disse ele em relação à decisão dos americanos de ignorar o Conselho de Segurança, adotar a estratégia de ataques preventivos e rever toda a questão da tortura. Sua crise pessoal tornou-se ainda mais grave com o atentado contra a sede da ONU em Bagdá - o maior da história da organização -, em que o brasileiro Sérgio Vieira de Mello e outras 22 pessoas morreram. No livro, Eckhart revela que o envio do amigo a Bagdá foi a pedido dos EUA. Annan teria tentado convencer a Casa Branca de que Vieira de Mello já estava "ocupado" demais no cargo de alto comissário da ONU para os Direitos Humanos. "Vieira de Mello foi convidado diretamente pelos americanos que, com isso, torceram o braço de Annan", diz Eckhart. O acordo foi que o brasileiro ficaria apenas quatro meses em Bagdá. Para Annan, o dia do atentado à bomba - 19 de agosto de 2003 - foi o pior de seu mandato. Dias depois, quando foi ao Rio de Janeiro para as homenagens ao brasileiro, Annan não queria jantar nem sair do quarto de hotel."Muitas pessoas perto dele confirmam que ele ficou deprimido", disse o ex-assessor. Annan, naqueles meses, perdeu a voz e, nas reuniões, parecia ausente. "Ele foi consultar um médico para cuidar da garganta, mas também procurou ajuda para lidar com o estresse emocional", contou Eckhart. Quando Annan finalmente alertou que a guerra do Iraque era ilegal, em uma entrevista à BBC, Eckhart disse ter advertido o secretário-geral de que ele teria problemas. "Ele retrucou: ?É isso o que penso?", disse Eckhart. O que se seguiu foi uma série de acusações de corrupção contra Annan, a maioria vinda de aliados conservadores do governo Bush. ESCÂNDALOEckhart defende o ex-chefe no escândalo envolvendo o programa Petróleo por Alimentos, que tentava garantir que a população iraquiana continuasse a receber ajuda, apesar do embargo econômico imposto ao regime de Saddam Hussein. "Foi tudo um grande cinismo", disse. Segundo ele, boa parte da imprensa americana também partiu para o ataque contra o secretário-geral."Nem Annan nem sua mulher, Nane, estavam preparados. Mas ele manteve uma posição digna", afirmou. "Todos aqueles que o conheciam, porém, viam que ele estava nervoso. Por baixo da mesa de reunião, Annan não parava de mexer os pés e as pernas."Em dezembro de 2004, Annan foi convidado pelo embaixador americano Richard Holbrooke para uma reunião em seu apartamento, em Nova York. O recado era claro: "Os EUA não pediriam sua cabeça e permitiriam que terminasse o mandato. No entanto, não moveriam uma palha para impedir sua queda."Alguns dias depois, em uma reunião privada, Annan foi vago ao ser questionado se iria renunciar. Um de seus assessores alertou que se fosse para sair, aquele era o momento. Annan levou semanas para avisar à imprensa que permaneceria no cargo.A ONU passou a ser alvo de uma investigação que, meses depois, acabou identificando 2.200 empresas em 66 países que pagaram US$ 1,8 bilhão em propinas ao governo de Saddam Hussein para garantir acesso ao petróleo. A conclusão foi de que Annan, de fato, teve problemas para gerenciar o programa, mas o africano não foi indiciado por corrupção. Seu filho, Kojo Annan, também foi suspeito de ter se beneficiado do esquema, mas quando o resultado da investigação foi divulgado, inocentando-o, era tarde demais: a imagem do secretário-geral estava arranhada. No último dia de mandato, Annan recebeu em Nova York o novo secretário-geral da ONU, o coreano Ban Ki-moon. Em seu discurso, Ban elogiou a elegância do terno de Annan, mas prometeu "limpar" a ONU. Annan respondeu: "Quando você conseguir limpar a ONU, te dou o telefone do meu alfaiate." Questionado sobre como avaliaria Annan, o embaixador dos EUA na ONU, John Bolton, apenas respondeu: "Essa pergunta eu passo."

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