Livros de Timbuctu

Se a batalha de Timbuctu, cidade sagrada muçulmana no centro do Mali, não provocou muitas vítimas - entre jihadistas, militares e civis -, inquieta a situação dos manuscritos guardados em Timbuctu, nas instituições oficiais e na posse de particulares. Segundo rumores, antes de abandonar a cidade os islamistas destruíram prédios onde estavam guardados manuscritos e queimaram uma grande quantidade. Se esses "autos de fé" se confirmarem, parte da cultura africana terá sido apagada da memória do mundo.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2013 | 02h05

Timbuctu, cidade agreste no deserto, onde nenhum europeu penetrou antes do francês René Caillé, em 20 de abril de 1828, é um "repositório" da memória africana. Documentos que remontam ao século 12 ali estão guardados. Peças magistrais, às vezes escritas em papel, mais frequentemente em pele de carneiro ou de camelo, redigidas em árabe ou em fulani, e consagradas à religião, ao direito e à poesia.

Os textos religiosos celebram a cultura muçulmana sufi. Será a razão do furor dos jihadistas? A espiritualidade sufi, feita de nuances e tolerância, é insuportável para os fanáticos. Mas talvez os saques em Timbuctu obedeçam a impulsos mais infames: conquistadores, bárbaros, religiosos ou fanáticos sempre assassinaram "simbolicamente" inimigos queimando seus livros.

A mais bela biblioteca do mundo, de Alexandria, foi incendiada três vezes: em 47 a.C. pelos soldados de Júlio Cesar; em 391 por Teófilo de Antioquia, que desejava erradicar o paganismo; e em 642 pelo general árabe Amr Ibn al-As, que explicou assim o seu crime: "Se o conteúdo está de acordo com o Livro Sagrado, é redundante, portanto inútil. Se estiver em desacordo, é indesejável. Então, vamos! Queimem tudo".

Guerras de religião na Europa queimaram muita coisa. Em 1550, a biblioteca de Oxford foi devastada pelos enviados do rei Eduardo VI, um "protestante" enérgico. Os católicos também incendiaram com o mesmo ardor. Restaram abundantes arquivos cristãos, mas a literatura das seitas heréticas, que era rica e estranha, está praticamente ausente. Chamas consumiram os livros dos "gnósticos" em grande parte.

Vamos dar adeus às maravilhas conservadas há cerca de dez séculos em Timbuctu? As notícias são confusas. Além disso, muitos dos tesouros do deserto desapareceram bem antes de os fanáticos tomarem a cidade em 2012. Há dez anos, uma ajuda enorme foi concedida para proteger os manuscritos. Dólares e euros teriam evaporado e, parte dos manuscritos, parado na capital, Bamako, ou na França.

Gilles Lapouge é correspondente em Paris.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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