Lobby pró-armas já não cabe nos EUA

A americana Associação Nacional do Rifle quer internacionalizar o acesso sem nenhum controle a armamento

DAVID, WEIGEL, FOREIGN POLICY, É REPÓRTER POLÍTICO DA SLATE , DAVID, WEIGEL, FOREIGN POLICY, É REPÓRTER POLÍTICO DA SLATE , O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2012 | 03h04

Artigo

A Associação Nacional do Rifle (ANR) dos EUA emitiu esta semana uma resposta à chacina no cinema multiplex de Aurora, no Colorado. Sua bandeira na sede no norte de Virgínia da associação pelo direito à posse de armas de fogo foi baixada a meio-pau. E só - nada mais sobre o assunto até haver "mais informações" disponíveis. Foi elegante e enxuto - um lembrete de que o debate doméstico sobre o controle de armas neste momento seria uma enorme distração para a ANR, que alargou seus objetivos.

Neste mês, a atividade lobista da ANR e a força de suas relações públicas estiveram espremendo a Conferência das Nações Unidas sobre o Tratado de Comércio de Armas, uma tentativa para estabelecer normas comuns para a venda internacional de armamento, incluindo as chamadas "armas pequenas", como rifles de assalto. De um lado, esteve a ANR, cujo vice-presidente executivo, Wayne LaPierre, identificou a guerra e lhe deu um nome. De outro, ONGs e qualquer pessoa que defendam o controle de armas.

As batalhas em casa foram em geral vencidas, e isso levou a ANR às leis fora dos EUA e aos acordos globais aos quais seu país natal poderia querer aderir. É simplesmente a última tentativa de retirar qualquer racionalidade de toda discussão sobre controle de armas em qualquer parte - enquanto os EUA choram a morte de 12 e o ferimento de dezenas com armas adquiridas legalmente.

É difícil não perceber essa aparente obstinação desmemoriada nas cúpulas sobre comércio de armas. Apesar do fato de que o tratado não conteria absolutamente nenhuma restrição à posse de arma doméstica, a rodada atual - que terminou na sexta-feira sem qualquer acordo - como todas as rodadas precedentes, teve um discurso bombástico de LaPierre. Dia 11, ele apareceu diante do painel em Nova York para oferecer uma preleção de cinco minutos sobre tirania e o sangue quente que corre nas veias americanas. "A única maneira de enfrentar as objeções da ANR é remover simples e completamente as armas de fogo civis do escopo do tratado", disse ele. "Essa é a única solução. Nisso não haverá nenhuma concessão. Os proprietários de armas americanos jamais abrirão mão da liberdade de nossa 2.ª Emenda."

Seu temor declarado de um registro nacional de armas nos EUA não tem nada a ver com as negociações - o tratado diz respeito a transferências internacionais. "Eles têm três ou quatro lobistas aqui todos os dias, e estão trabalhando, mas nessa questão estreita. Os EUA já controlam o comércio de armas civis e militares, de modo que, quando se opõe a isso, a ANR está pedindo uma norma abaixo da que já existe", diz Scott Stedjan, um consultor que fazia lobby na cúpula. É assim que funciona o lobby internacional da ANR. O lobby faz soar alarmes sobre novas leis de armas em qualquer país. Ele transmite as más novas em casa. "O pessoal contra as armas de todo o globo acredita que ganhou a parada", escreveu LaPierre em seu livro de 2006, The Global War on Your Guns (A guerra global às tuas armas, em tradução livre). "Desde sua fundação há 65 anos, as Nações Unidas vêm tentando firmemente colocar os EUA de joelhos." A estratégia da ANR: colocá-las de joelhos primeiro.

Influência externa. Tome-se o exemplo do Brasil, que passou parte dos anos Lula debatendo novas restrições duras à posse civil de armas. Em 2003, o Parlamento aprovou uma nova legislação e montou um referendo para 2005 que proibiria "o comércio de armas de fogo e munições". Conservadores brasileiros pediram ajuda à ANR. Charles Cunningham, um dos melhores advogados do grupo em Washington, foi despachado ao Brasil para passar seus truques. "Ignorância e emoção são questões-chave para enfrentarmos a lógica e o senso comum", ele disse em 14 de agosto de 2003 numa reunião da campanha Pró Legítima Defesa. "A legislação de controle de armas afeta somente cidadãos cumpridores da lei porque os criminosos não precisam de porte de armas." A campanha do "não" subsequente, tal como detalhada em The Global Right Wing and the Clash of World Politics (A direita global e o embate da política global, em tradução livre) de Clifford Bob, foi pesadamente influenciada pelos argumentos os da ANR.

Um jornalista do país noticiou que os defensores do "não" pareciam ter "cortado e colado" argumentos a ARN sobre "direitos" a armas, que os brasileiros na realidade não tinham. Os partidários do "não" ficaram tão cheios de floreios como o próprio LaPierre, divulgando um anúncio com uma foto de Hitler fazendo a saudação nazista com a legenda: "Quem quer o desarmamento, levante a mão direita!" E a campanha do "não" teve uma vitória esmagadora. O Brasil era "um trampolim para o lobby global da proibição de armas infligir sua vontade para os proprietários de armas cumpridores da lei", segundo Thomas Mason, da ANR.

Barack Obama conquistou a presidência em 2008, mas ele não era nenhum Bill Clinton - quanto mais um Lula. As vendas de armas de fogo e munições dispararam. Obama não restaurou a Proibição de Armas de Assalto. A deputada do Arizona, Gabrielle Giffords, foi baleada na cabeça. Mas Obama não fez absolutamente nada para restringir armas de fogo.

E, com tudo isso, a ANR ainda teme um ataque insidioso. Em 2011, o novo presidente da ANR, David Keene - um ex-chefe da União Conservadora Americana - criou um novo subcomitê para assuntos internacionais dentro do comitê de política legislativa da associação. O homem que o chefiaria: John Bolton. Durante o governo de George W. Bush, Bolton havia conquistado um status de ícone por ter ido a Nova York e advertido a ONU para não ir atrás das armas dos americanos. Agora que faz oficialmente parte da ANR, Bolton dá lastro à teoria de que Obama está lentamente tramando um assalto internacional à 2.ª Emenda. "Ele acredita que se puder conseguir um segundo mandato, é aí que as comportas da enchente se abrirão", disse Bolton na rede noticiosa própria da ANR. "Além disso, ele tem os itens de agenda como controle internacional de armas que promoveu muito discretamente."

O que "promoveu muito discretamente" quer dizer? Os EUA estão participando em conversações sobre armas pequenas, mas estão partindo de uma defesa da soberania. Em sua declaração oficial à conferência, o negociador do governo, Donald Mahley, advertiu que "qualquer tentativa de incluir provisões no tratado que interferissem no controle soberano de cada Estado sobre a posse, uso ou movimento doméstico de armas estaria claramente fora do escopo de nosso mandato." Ele poderia estar lendo um panfleto da ANR.

Mas Bolton escuta isso e suspeita de trapaça. A posição declarada a ANR é que as várias ditaduras que formam a ONU estão tentando dirigir as vidas dos americanos. Como os cilônios, eles têm um plano. "Será que eles querem realmente dissimular agora", perguntou Bolton sobre os negociadores do Tratado de Comércio de Armas, " contabilizar seus ganhos e esperar que possam aprová-lo? Ou será que acham que talvez seja melhor esperar até novembro e ver o que ocorre em nossa eleição?" E esse é o xis da questão. Os esforços anteriores da ANR ajudaram a pôr 57 senadores declarados contra qualquer tratado "amplo" que criasse "algum tipo de registro de armas internacional". / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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