Alberto Pizzoli/AFP
Alberto Pizzoli/AFP

Local onde Júlio César foi assassinado em Roma poderá ser visitado a partir de 2022

A chamada Area Sacra, no coração da cidade, vai virar um museu a céu aberto; obras de restauração do sítio arqueológico, que abriga as ruínas de quatro templos, entre o Panteão e o Bairro Judeu, começarão em maio

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2021 | 18h02
Atualizado 14 de abril de 2021 | 20h49

ROMA - As ruínas do Largo di Torre Argentina, onde Júlio César foi assassinado em 15 de março do ano 44 a.C, poderão ser visitadas a partir de 2022, anunciou nesta quarta-feira, 14, a prefeita de Roma, Virginia Raggi. A chamada Area Sacra, no coração da cidade, vai virar um museu a céu aberto, disse a prefeita, explicando que, para isso, terá o patrocínio da casa de moda e joalheria Bulgari. 

O projeto, orçado em € 985 mil (cerca de R$ 6,7 milhões) faz parte de um modelo de parceria entre empresas e poder público que tem ajudado a conservar o patrimônio arquitetônico e cultural de Roma. A Bulgari financia a reforma e, em troca, tem o direito de atrelar sua marca ao local histórico. A empresa já investiu cerca de € 1,5 milhão na renovação da escadaria da Piazza di Spagna, em 2016. O modelo possibilitou reformas em pontos como Fontana di Trevi, pela marca Fendi, e Coliseu, pela Tod’s, marca italiana de sapatos.

As obras de restauração do sítio arqueológico, que abriga as ruínas de quatro templos, entre o Panteão e o Bairro Judeu, começarão em maio e deverão ficar prontas até 2022. "Graças a esse trabalho poderemos caminhar no meio dos vestígios da nossa história", disse a prefeita.

O Largo di Torre Argentina é um complexo de templos e prédios públicos da época da República de Roma e dos primeiros anos do Império Romano. As ruínas ficam seis metros abaixo do nível da rua e podem ser admiradas do alto da praça central, onde estão pontos de ônibus, lojas, livrarias e um renomado teatro.  

O ponto não tem nenhuma relação com o país sul-americano, mas ganhou esse nome por causa de Johannes Burckardt, um bispo alemão que foi mestre de cerimônia de vários papas no século 15. Ele nasceu em Estrasburgo, na França, que era chamada de “Argentoratum”, em latim. Burckardt construiu seu palácio no largo e, em anexo, a Torre Argentoratina, que acabou batizando o local. 

Hoje, cercado por ruas movimentadas, pontos de ônibus e táxis e lojas, o Largo di Torre Argentina é uma praça que não lembra em nada a grandiosidade do ano em que Júlio César foi assassinado. Na ocasião, o ditador romano, de 55 anos, foi cercado por 60 senadores, incluindo seu filho ilegítimo Marcus Iunius Brutus, e morreu com 23 facadas – que teria deixado para a posteridade a frase “Até tu, Brutus, filho meu”. A emboscada aconteceu na Cúria de Pompeu, salão que abrigava encontros e sessões do Senado de Roma, no Campo de Marte. O motivo foi o temor de que Júlio César se declarasse rei. 

O crime foi organizado no dia da festa dos Idos de Março - que encerrava os festejos de fim de ano, já que na Roma Antiga o ano começava no dia 1º de março - e desde então essa expressão é popularmente considerada sinônimo de traição. A morte causou outro período de guerras civis após o qual seu sobrinho, Otaviano, pôs fim definitivo à República e se proclamou imperador de Roma.

Com entrada proibida há anos, o local já teve muitas vidas. Durante a maior parte do século 20, as rochas e estruturas abrigaram centenas de gatos e, eventualmente, eram tantos que as pessoas o transformaram em um centro de adoção informal. Sua fama cresceu e hoje existe uma instituição oficial para gatos. 

Entre os templos que datam dos séculos 3 e 4 a.C, destaca-se um monumento circular dedicado à Deusa da Fortuna, cuja colossal cabeça de mármore está exposta no museu Centrale Montemartini de Roma.

As ruínas da praça foram descobertas por acaso durante as escavações de 1926 feitas para o plano urbano que o ditador Benito Mussolini promoveu para modernizar a cidade, que incluía a demolição de edifícios medievais. Em lugar da modernização, Mussolini se deparou com mais um sítio histórico da Cidade Eterna.

Além do ponto de reuniões do Senado, foram revelados restos de quatro templos, de vários períodos. O Templo de Juturna, do 3.º século a.C, foi posteriormente reconstruído como Igreja de São Nicola de Calcario, que também está em ruínas. O Templo da Fortuna do Dia, concluído em 101 a.C., tem formato redondo e seis colunas ainda de pé. 

O mais antigo é o Templo de Ferônia, do 3° século a.C, cujos mosaicos brancos, colocados após um incêndio no ano 80 d.C., ainda são visíveis. O maior é o Templo dos Lares Permarinos, do 2.º século a.C., cuja fundação ainda não foi escavada.

Diante da descoberta, optou-se por estudá-los e foram inaugurados como praça pública em 1929. Quase um século depois, financiadas pela Bulgari (propriedade da gigante francesa de luxo LVMH), as obras deverão durar um ano com passagens, um sistema de iluminação especial e um espaço para exposições.

"Estamos nos preparando para a chegada de novos turistas para quando acabar a crise da covid", declarou a prefeita da capital, preocupada com a crise do setor, pois Roma, meca do turismo mundial, passou um ano deserta pela pandemia./AFP e Reuters

 

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