Ahmad Gharabli/AFP
Ahmad Gharabli/AFP

Lod, em Israel, era modelo da coexistência entre árabes e israelenses; agora cidade vive tensões

Cidade onde 40% da população é palestina com cidadania israelense, ou seja, descendentes de palestinos que permaneceram em suas terras em 1948 após a criação do Estado de Israel, tensão aumentou entre jovens árabes e extremistas judeus

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2021 | 05h00

LOD - Uma sinagoga incendiada, veículos queimados e uma agressividade crescente nas ruas. Por muito tempo, a cidade de Lod foi um símbolo de coabitação entre israelenses e palestinos cidadãos de Israel, mas nesta semana a coexistência explodiu em pedaços.

Na noite de segunda-feira, enquanto o Hamas e a Jihad Islâmica disparavam foguetes da Faixa de Gaza contra Israel e milhares de palestinos se manifestavam na Cisjordânia e em Jerusalém, as chamadas cidades israelenses mistas foram palco de violência.

Em Lod, cidade industrial onde 40% da população é palestina com cidadania israelense, ou seja, descendentes de palestinos que permaneceram em suas terras em 1948 após a criação do Estado de Israel, a tensão aumentou entre jovens árabes e grupos extremistas judeus.

Mussa Hassuna, um palestino de 32 anos de Israel, foi morto a tiros esta semana. Imagens que circulam nas redes sociais sugerem que nacionalistas israelenses armados que estavam em um prédio próximo são os responsáveis pelo crime.

Na noite de terça-feira, durante seu funeral, a situação piorou. Houve veículos queimados, lançamento de pedras e coquetéis molotov, e o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu declarou "estado de emergência" em Lod.

No momento, Israel foi alvo de uma enxurrada de projéteis lançados da Faixa de Gaza, aos quais seu Exército respondeu com bombardeios retaliatórios.

Moradores relatam medo

O presidente israelense, Reuven Rivlin, que há algumas semanas estava celebrando um 'iftar' (refeição para quebrar o jejum do Ramadan) com as autoridades árabes, denunciou um "massacre" perpetrado por "uma multidão árabe sanguinária".

"Os árabes estão tentando nos matar! E por quê? Não tenho ideia", diz Yoel Frankenburg, ao pé de uma sinagoga incendiada. "Eles me atacaram, atiraram pedras em mim. Mandei meus filhos para fora da cidade" para a casa dos avós, "porque estou com medo", conta.

Segundo ele, várias famílias israelenses do bairro escondem fuzis para se proteger porque "a polícia não faz nada".

A tensão foi contida por muito tempo, estimam os cidadãos palestinos da cidade, que comparam famílias como a de Yoel a colonos israelenses que vivem na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, territórios palestinos ocupados ilegalmente por Israel segundo o direito internacional. Mas Lod não é um território palestino, fica próxima do Aeroporto Internacional Ben Gurion, perto de Tel-Aviv.

Guerra demográfica

Muitos cidadãos palestinos de Lod acusam o gabinete do prefeito de facilitar o estabelecimento de grupos de judeus conservadores, ou "extremistas", para transformar a composição demográfica da cidade. "Vivemos toda a nossa vida com os judeus e temos boas relações com eles", garante Abd al Naqib, de 29 anos.

"O problema são os 'mustawtinin' (palavra em árabe usada para designar os colonos) que vêm para se estabelecer. O objetivo é oprimir os árabes e expulsá-los, não importa onde, para que Lod se torne uma cidade judia", explica. 

Diante do tribunal local, israelenses expressaram seu apoio aos judeus presos por seu suposto papel na morte de Hassuna.

Meir Layosh, com uma arma semi-automática no ombro, discursa aos presentes. “Não somos violentos, mas temos de nos proteger de terroristas e antissemitas. Essas pessoas não nos querem aqui, mas tenho um recado para eles: vamos ficar”, diz./AFP

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