Londres quis devolver torturador argentino preso

Documentos secretos revelados na Grã-Bretanha mostram a dor de cabeça diplomática que foi ter como prisioneiro o tenente da Marinha Alfredo Astiz

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES , O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2013 | 02h06

Documentos secretos do National Archives, de Londres, abertos na semana passada, revelam que a primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher pensou em mandar de volta para Buenos Aires o torturador argentino Alfredo Astiz - o único prisioneiro de guerra levado para a Grã-Bretanha. A ideia era enviá-lo em um voo direto de Londres para a capital argentina sob um pseudônimo.

Astiz, tenente da Marinha argentina na época da Guerra das Malvinas, em 1982, foi preso pelos britânicos após se render sem disparar um tiro sequer no dia 25 de abril, na ilha Geórgia do Sul. Sua rendição - segurando um copo de uísque na mão esquerda enquanto assinava com a direita - marcou o início do fim da guerra do ditador Leopoldo Galtieri.

No entanto, segundo indicam os documentos, ter Astiz como prisioneiro foi uma dor de cabeça diplomática para os britânicos. Logo depois da prisão, quando ele estava a caminha da Ilha de Ascensão, os britânicos souberam que ele era um dos principais homens da ditadura, autor do sequestro e assassinato de duas freiras francesas e uma adolescente sueca em Buenos Aires. Por isso, Suécia e França queriam julgá-los e começaram a pressionar por sua extradição.

O presidente francês, François Mitterrand, segundo relata John Holmes, um dos principais assessores de Thatcher, quando soube que Astiz estava preso, fez de tudo para que Londres lhe entregasse o oficial.

Diante da pressão, segundo mostram os documentos, Thatcher, que depois colocou Astiz na prisão em uma base miliar em Chichester, pensou em dar-lhe uma identidade falsa e enviá-lo em um voo civil para Buenos Aires.

Prisão perpétua. Os documentos apontam que Londres temia que, caso Astiz fosse extraditado para França ou Suécia, a ditadura argentina pudesse assassinar prisioneiros britânicos, entre eles estava o tenente Jeff Glower, piloto de um caça Harrier que havia sido derrubado. Mais tarde, Astiz foi enviado a Buenos Aires em um voo que fez escala no Brasil.

Após o fim da ditadura, Astiz foi julgado por seus crimes. No entanto, foi anistiado depois de uma série de levantes militares que abalaram o governo de Raúl Alfonsín. No ano passado, quase 30 anos depois de ter corrido o risco de ter sido entregue a suecos e franceses, o torturador foi condenado à prisão perpétua em Buenos Aires.

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