Londres se absterá em questão palestina

Grã-Bretanha anuncia oficialmente sua abstenção na votação sobre o pedido de adesão da Palestina como membro pleno da ONU

LONDRES, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2011 | 03h06

O Foreign Office, como é conhecido o Ministério das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, anunciou ontem que Londres e Paris não se juntarão aos EUA na decisão de vetar a resolução que prevê o reconhecimento da Palestina como Estado-membro da ONU. Britânicos e franceses se absterão na votação no Conselho de Segurança. Grã-Bretanha e França são as potências da Europa Ocidental com poder de veto no conselho.

O anúncio foi feito ontem pelo secretário britânico do Exterior, William Hague. "Pelas mesmas razões que a França, e em consultas com nossos parceiros europeus, a Grã-Bretanha se absterá em qualquer voto sobre a entrada integral dos palestinos na ONU", disse Hague.

Segundo o chanceler britânico, os palestinos "de modo geral preenchem" os requisitos necessários para se tornar um Estado-membro da ONU. Mas a melhor solução, ponderou, é por meio de uma negociação direta entre a Autoridade Palestina e Israel.

Na sexta-feira, a França anunciou que se absterá na votação. Romain Nadal, um dos porta-vozes da diplomacia francesa, defendeu que a entrada da Palestina como membro pleno da ONU é impossível, diante da promessa americana de vetar a resolução.

Ao mesmo tempo, a legitimidade da reivindicação palestina é "indiscutível", disse Nadal, e por isso Ramallah deveria obter status de "observador, não membro" - possibilidade que a Autoridade Palestina, extraoficialmente, não descarta.

Além da promessa de veto do governo Barack Obama, os palestinos não devem conseguir nem sequer a "vitória moral" que planejavam. Para uma resolução ser aprovada no Conselho de Segurança é preciso que ela receba pelo menos 9 votos favoráveis dos 15 membros do órgão, além de nenhum veto.

Segundo declarações de governos e informações de bastidores, Ramallah terá apoio de, no máximo, oito países: Brasil, China, Rússia, Índia, África do Sul, Líbano, Nigéria e Gabão (os dois últimos não anunciaram formalmente seu voto). Seis devem se abster: Grã-Bretanha, França, Portugal, Alemanha, Colômbia e Bósnia. Os EUA prometem usar seu poder de veto e enterrar de vez a proposta.

A data para o voto no Conselho de Segurança ainda não foi marcada. Mas, segundo diplomatas, o relatório do Comitê de Admissão - órgão que deverá passar a questão para o conselho - deve ser concluído em breve.

No entanto, não há consenso entre os integrantes do comitê. De acordo com uma cópia do texto do órgão, obtida pela Associated Press, o Comitê de Admissão informou na terça-feira aos 15 integrantes do Conselho de Segurança que "foi incapaz de chegar a uma recomendação unânime". O comitê voltará a se reunir amanhã e, mesmo se não chegar a um ponto em comum, deverá passar a questão ao Conselho de Segurança.

Plano B. A Autoridade Palestina indicou que, mesmo com o Conselho de Segurança bloqueado, não desistirá de sua investida pelo status de membro pleno da ONU.

O objetivo, agora, é obter reconhecimento de Estado em agências e programas específicos das Nações Unidas, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização de Aviação Civil Internacional (OACI) e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

No mês passado, Ramallah conseguiu a maioria dos votos na Unesco e passou a ser conhecida como o integrante de número 195 da agência da ONU que cuida de questões de ciência e cultura. Em represália, EUA, Israel e Canadá cortaram o financiamento ao órgão.

"Sabíamos que (a ação) no Conselho de Segurança não seria um passeio. No entanto, a coisa mais importante é quem vencerá o último round", disse Riad Malki, ministro das Relações Exteriores da Autoridade Palestina. "Haverá outros rounds e nunca desistiremos", completou.

Diálogo indireto. Na segunda-feira, o chamado "Quarteto" - grupo de negociação formado por EUA, Rússia, União Europeia e ONU - voltará a se encontrar, separadamente, com representantes dos governos israelense e palestino. As reuniões deverão ocorrer em Jerusalém.

Acredita-se, porém, que dificilmente o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, mudará de posição sem uma concessão de Israel. O presidente condiciona a volta do diálogo direto ao imediato congelamento nas construções israelenses em território palestino - tanto na Cisjordânia quanto em Jerusalém Oriental.

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, indicou que não imporá mais nenhuma moratória sobre os assentamentos. Ao ser eleito, em 2009, Netanyahu congelou por dez meses a ampliação em construções na Cisjordânia.

"A resposta correta daqueles que querem ver a paz avançar no Oriente Médio é dizer aos palestinos que essa estratégia na ONU não terá sucesso e reforçar que chegou a hora de retornar às negociações", disse o porta-voz do governo israelense, Mark Regev. "Israel está pronto", completou. / REUTERS e AP

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