Longa ausência alimenta especulações sobre sucessão

Adversários de Chávez questionam sigilo sobre saúde e legalidade do exercício da presidência [br]a partir de Cuba

Juan Forero, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2011 | 00h00

THE WASHINGTON POST

Acostumado a fazer horas de discursos televisionados todas as semanas, o presidente venezuelano Hugo Chávez sumiu dos olhos do público há duas semanas, submetendo-se a uma cirurgia de emergência em Cuba e inspirando especulações entre a classe política do país em relação a quem poderia ser o sucessor caso o coronel venha a morrer.

 

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O governo tratou o afastamento do presidente como um segredo de Estado, divulgando poucos detalhes sobre sua condição de saúde. Aquilo que foi revelado ao público pelas pessoas mais próximas de Chávez só alimentou as especulações em relação à saúde do homem que dominou a política nos 12 anos em que esteve no poder a ponto de nenhum sucessor ter emergido, nem mesmo dentro de seu populista movimento bolivariano.

O afastamento de Chávez por tanto tempo, sentido principalmente nas transmissões que ele comandava com frequência na Venezuela, levou a um acalorado debate sobre quem poderia, ou deveria, assumir o controle do país. Num governo que os analistas políticos descrevem como repleto de bajuladores que raramente questionam suas decisões, a doença de Chávez expôs a carência de um líder confiável para substituí-lo.

"Ele vem centralizando o poder há 12 anos, colocando a si mesmo em primeiro plano como o único líder, indispensável", disse Demetrio Boersner, historiador e ex-diplomata venezuelano. "No momento, não existe ninguém no partido do governo que pareça ser seu substituto lógico caso se torne necessário."

Chávez, que completa 57 anos no mês que vem, telefonou à principal emissora estatal venezuelana para anunciar que estava se recuperando e não sofria de doença "maligna". Oficialmente, o governo disse que ele foi operado para a remoção de um "abscesso na pélvis". Representantes do governo dizem que o presidente continua a assinar documentos e a governar de Cuba, principal aliada da Venezuela.

O irmão de Chávez, Adán, disse na quarta-feira que ele estava se recuperando e permaneceria em Havana por 10 ou 12 dias, o que significa que voltaria a tempo de participar de uma reunião de cúpula dos países caribenhos.

Os aliados políticos de Chávez ficaram irritados com as especulações em relação à doença do presidente nos principais veículos jornalísticos venezuelanos e entre a oposição, descrevendo-as como tentativa de semear a discórdia. Mas os adversários questionam tanto o sigilo envolvendo sua ausência prolongada quanto a legalidade do exercício da presidência de Chávez a partir de Cuba.

"Não se pode governar um país pelo Twitter", disse Antonio Ledezma, prefeito de Caracas e um dos principais adversários políticos de Chávez. Ele disse que nesse "momento de confusão" os venezuelanos estão se perguntando quem seria o legítimo ocupante da presidência.

A Constituição venezuelana diz que o vice-presidente assume o lugar do presidente durante uma ausência "temporária". Mas o vice-presidente Elias Jaua rejeitou a exigência de que assumisse o cargo em caráter interino feita por opositores do governo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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