REUTERS/Jose Cabezas
REUTERS/Jose Cabezas

Longa espera faz imigrantes de caravana para EUA decidirem voltar

Lentidão do processo de asilo nos EUA faz imigrantes centro-americanos pensarem em voltar

Kevin Sieff e Joshua Partlow, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2018 | 05h00

Nelmy Ponce e seus três filhos estão cansados de dormir no chão, chova ou faça sol. Também não aguentam mais serem chamados de “porcos” simplesmente porque são estrangeiros.

Quando se juntaram à  caravana de imigrantes, acharam que escapariam da vida perigosa que levavam em meio às gangues hondurenhas e da violência semeada pelos EUA que alimenta caravana da América Central. Agora Ponce, sem ver perspectivas no curto prazo de obter asilo nos Estados Unidos, diz que encontrou seu próprio purgatório. “Deus está me mandando voltar para casa”, interpretou ela.

Ponce, de 46 anos, ex-vendedora de taco, estava nesta quarta-feira sentada com os filhos em cadeiras de plástico numa pequena barraca em Tijuana, México, estudando uma opção que os migrantes mais desesperados já estão aceitando: o “retorno voluntário assistido”.

Para migrantes que passaram dois meses andando e pegando carona através da América Central e México, esse revertério dramático mostra como a situação está difícil também aqui em Tijuana, e com muitas famílias foram surpreendidas ao saber da lentidão do processo de asilo nos EUA.

"Eles tomam a decisão (de retornar) por várias razões", disse Ivonne Aguirre, coordenadora de um programa de assistência a migrantes para a volta ao país de origem lançado pela Organização Internacional para Migração (OIM). “Alguns estão doentes ou têm parentes doentes, outros sentem falta da família, outros foram surpreendidos pelas condições que encontraram, muito diferentes do que imaginavam.”

Ainda há mais de 6 mil migrantes da caravana alojados no complexo esportivo de Tijuana, e a maioria está disposta a esperar semanas para chegar a pedir asilo nos Estados Unidos. Mas aos poucos vai crescendo o número dos que vêm tomando outras decisões, como ficar no México ou voltar para a América Central.

Desde que o programa da OIM foi lançado aqui, há uma semana, 50 migrantes centro-americanos inscreveram-se para voltar para casa. Nos próximos dias, o primeiro grupo seguirá em voos comerciais para Tapachula, no sul do México, e dali continuará a viagem para os países de origem por outros meios, como ônibus.

Migrantes também têm a opção de pedir transporte à agência de migração do México, que está providenciando ônibus para a viagem à América Central, bem como de candidatarem-se a voos em aviões da polícia federal. Cesar Palencia, chefe do escritório de migração em Tijuana, disse que 200 pessoas já deixaram a caravana e optaram por esses canais.

Desde 19 de outubro, quando a caravana entrou no sul do México, 2010 migrantes preferiram “voltar voluntariamente” a seus países, segundo uma porta-voz do Instituto de Migração do México. As terríveis condições de cobrir diariamente a distância de uma maratona, ou mais, sempre caminhando, desencorajou a maioria de seguir viagem.

À medida que a caravana avançava penosamene através do México, o governo procurou vários meios de dispersar o grupo. O presidente Enrique Peña Nieto propôs um programa chamado “Você está em casa”, oferecendo aos migrantes refúgio nos Estados de Oaxaca e Chiapas, sul do México, além de permissões de trabalho e escola para as crianças. Cerca de 600 aceitaram a oferta, mas a maioria preferiu continuar andando.

O governo também ofereceu permissões temporárias de trabalho para os que quisessem ficar no México. Cerca de 700 centro-americanos que estão no Estado de Baja California e na Cidade do México deram entrada no pedido, segundo informou quarta-feira o Ministério do Interior mexicano.

A equipe de transição do presidente eleito, Andrés Manuel López Obrador, disse que pode oferecer 100 mil permissões para centro-americanos viverem no México. As permissões incluem o tempo que os pedidos de asilo levarem para ser processados. Funcionários da equipe de transição informaram que há uma grande demanda por mão de obra em indústrias do sul do México, e para projetos de infraestrutura como o Trem Maia, também no sul do país.

“Acredito que parte dessa caravana possa ser assimilada”, disse na semana passada a futura ministra do Interior do México, Olga Sanchez Cordero. “Outros talvez voltem para seus países, cansados de ficar aqui.”

Após dois meses de estrada e uma semana em Tijuana, Nelmy Ponce atingiu esse cansaço. Na barraca da OIM, ela disse a Ivonne Aguirre que sofreu ameaças quando tinha um pequeno quiosque de venda de taco em sua cidade, Yoro, em Honduras. Sentiu então que sua família corria risco e sonhou em pedir asilo nos Estados Unidos. Em Tijuna, porém, Nelmy soube que não seria tão fácil.

“Me disseram que teríamos de esperar uns três meses para dar entrada no processo de asilo”, contou, após ser ouvida na OIM. “Não queremos ficar esperando aqui. Tijuana não é um lugar seguro. Fala-se muito em crimes, em raptos.” Então perguntou aos filhos, que têm entre 12 e 16 anos, o que eles queriam fazer. Todos quiseram voltar para Honduras, desde que pudessem morar num lugar mais seguro que sua cidade natal.

Ponce disse a Aguirre que gostaria de viver numa parte de Honduras onde mora seu irmão, que supõe ser um lugar mais seguro que Yoro. Aguirre explicou que levará algum tempo para programar a viagem através do consulado de Honduras e que o nome dela ficaria numa lista de espera para o voo.

Assim, Noelmy Ponce terá algum tempo para avaliar o que significou a dura jornada com a caravana, enquanto se prepara para voltar a seu país. “Não foi fácil, mas pelo menos serviu para nos aproximar”, disse ela olhando para os filhos. “E me fez dar mais valor a minha casa e a minha cama.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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