Taro Karibe for The Washington Post.
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Longe da máfia, ex-membros da Yakuza tentam mudar de vida no Japão

Em 2011, a Yakuza possuía cerca de 70,3 mil membros, mas esse número caiu para 25,9 mil em 2020, segundo o Centro Nacional para a Remoção de Organizações Criminosas

Michelle Ye Hee Lee and Julia Mio Inuma/ THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2021 | 05h00
Atualizado 19 de outubro de 2021 | 07h44

KITAKYUSHU, JAPÃO -O chef especializado em noodles Takashi Nakamoto se move com tamanha destreza quando cozinha e monta seus pratos, que é fácil ignorar um sinal brutal de sua vida anterior: o dedo mindinho faltando em sua mão esquerda.

Ao longo das três últimas décadas, Nakamoto evoluiu na hierarquia do Kudo-kai, uma violenta organização criminal pertencente à anteriormente poderosa Yakuza, rede criminosa cuja estrutura está sendo desmantelada por um policiamento mais agressivo.

Esse esforço ocasionou um grande número de desertores – como Nakamoto – que tentam se reinventar após passar a vida na Yakuza, que, de maneira similar a uma família, é regida por um estrito código de lealdade. Seus membros são com frequência fáceis de reconhecer, com suas tatuagens de corpo inteiro e dedos mindinhos amputados pela máfia, como punição a infrações.

A erosão da Yakuza

Por anos, a Yakuza operou abertamente. A organização era apenas monitorada pela polícia, sob o entendimento de que evitaria crimes em seus territórios e deixaria em paz os cidadãos comuns. Mas agora as autoridades japonesas estão pressionando com mais força, e o poder da Yakuza começa a erodir.

Em 2015, enquanto cumpria sua mais recente pena de prisão, Nakamoto pensou a respeito do rumo que sua vida tinha tomado. Ele havia perdido a fé na organização e em seu futuro. Era hora de partir.

“Apesar de ter abandonado o mundo da Yakuza, aprendi muito com ela. E algo do que está em seu cerne nunca mudou”, afirmou Nakamoto, de 55 anos, em seu restaurante em Kitakyushu, cidade do sul do Japão que é lar do clã Kudo-kai.

“Eu estava disposto a tudo, até de morrer pela minha organização, e agora estou apenas mudando de ritmo, mas com a mesma mentalidade e empregando a mesma determinação para viver e trabalhar na sociedade normal.”

A vida de um ex-mafioso

Mas encontrar normalidade não é algo fácil para ex-membros da Yakuza, que enfrentam estigmas sociais e significativas barreiras legais. Alguns programas do governo oferecem apoio financeiro quando ex-membros deixam a vida mafiosa, mas muitas portas continuam fechadas.

Adesões à Yakuza estão em queda – como resultado de uma década de intensificação nas operações policiais contra o crime organizado e o alcance da Yakuza sobre atividades ilegais, incluindo narcotráfico, lavagem de dinheiro e jogo.

Em 2011, a Yakuza possuía cerca de 70,3 mil membros, mas esse número caiu para 25,9 mil em 2020, segundo o Centro Nacional para a Remoção de Organizações Criminosas. Esse êxodo tornou possível para membros como Nakamoto deixar a organização sem medo de vingança por quebra do código de lealdade.

Em 24 de agosto, uma corte japonesa emitiu o que acredita-se ter sido a primeira pena de morte para um chefe da Yakuza, o líder do clã Kudo-kai, Satoru Nomura, que foi condenado por envolvimento em ataques contra quatro cidadãos. O veredicto mandou uma mensagem mais ampla, de que os tempos estão mudando para a Yakuza.

Após ouvir sua sentença, Nomura gritou para o juiz: “Você se arrependerá disso pelo resto de sua vida” (o veredicto está agora em fase de recurso. Os advogados de Nomura afirmaram depois que a fala de seu cliente não tinha intenção de ser uma ameaça).

“Acho que essa sentença surtiu um impacto no mundo da Yakuza”, afirmou Garyo Okita, um ex-membro da Yakuza que hoje escreve livros em parte autobiográficos e supervisiona projetos de filmes a respeito de grupos criminosos do Japão. “Agora que há o precedente de uma pena de morte, o Kudo-kai não será visto como um caso extremo, mas toda a Yakuza será vista como uma ameaça.”

Cerca de uma década atrás, grupos da Yakuza ficaram tão descarados e poderosos financeiramente que autoridades de todo o Japão emitiram ordens proibindo qualquer empresa ou indivíduo de se associar com membros ou atividades da Yakuza.

Guerra de clãs

As leis tinham como objetivo isolar a Yakuza da sociedade, afirmou Noboru Hirosue, um proeminente especialista em so sso significou que membros da Yakuza não podiam mais abrir contas em bancos, alugar casas, contratar seguros nem comprar telefones celular. Okita – que deixou em 2014 o maior clã da organização criminosa, o Yamaguchi-gumi – afirmou que as regras também sancionavam as famílias de membros da Yakuza e outras pessoas de seu convívio social. 

Essas mudanças levaram a aposentadorias antecipadas, e muitos subalternos também deixaram a organização. Mas Hirosue, que trabalha como oficial de Justiça, afirmou que as mudança levaram a um aumento de outras redes criminosas não ligadas à Yakuza. Esses grupos agora mudaram seu ramo de atividade para novos delitos, incluindo fraudes contra idosos, crimes cibernéticos e maneiras de lucrar com drogas legais, como calmantes e morfina, afirmou.

Motohisa Nakamizo, que deixou o Kudo-kai em 2011, quando seu chefe se aposentou, foi contratado pela imobiliária de seus pais. Foi seu primeiro emprego legítimo depois de 30 anos cuidando de tráfico de drogas para o Kudo-kai. Mas oportunidades como essa são raras.

Regulações locais impedem ex-membros de exercer atividades como abrir uma conta bancária ou assinar um contrato de aluguel por ao menos cinco anos após eles deixarem a rede criminosa.

De acordo com a análise de Hirosue de registros laborais do Ministério da Justiça relativos a ex-membros da Yakuza, depois de registrar seus desligamentos na polícia, apenas 3% dos que deixaram a organização entre 2010 e 2018 encontraram trabalho. Alguns dos que não conseguem trabalho voltam para a Yakuza, mas alguns se juntam a outras gangues, afirmou ele./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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