Washington Post photo by Marina Lopes
Washington Post photo by Marina Lopes

Lontras invadem Cingapura

Expulsas pela poluição, elas voltaram a fazer parte da paisagem de uma das cidades mais cosmopolitas do mundo

Washington Post, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2021 | 05h00

CINGAPURA - A poluição e o desmatamento afastaram as lontras de Cingapura nos anos 70. Agora, elas estão de volta. Com águas mais limpas e áreas reflorestadas, elas se integraram ao espaço urbano e estão aprendendo a navegar em uma das cidades mais cosmopolitas do mundo.

Para aborrecimento de alguns e alegria de outros, Cingapura se tornou lar de dez famílias de lontras. Na área de Marina Bay, conhecida pelos hotéis de arquitetura audaciosa e quitinetes de US$ 1,8 milhão, elas estão por todas as partes. Usando canos de esgoto como estradas, os bichos atravessam a cidade, às vezes surgindo em plena hora do rush ou correndo pelos câmpus universitários. 

Empurradas para fora dos rios e das baías por famílias rivais, elas cavam casas entre os edifícios, visitam lobbies de hospitais e piscinas de condomínios, caçam carpas em lagos ornamentais e bebem água dos chafarizes. Elas lutam por acesso a comida e abrigo, em batalhas que são cobertas pelos jornais locais e dissecadas online pelos fãs.

À medida que a população de lontras cresce, também aumenta a popularidade dos bichinhos. Observadores como Marjorie Chong passam dias rastreando o paradeiro das famílias, documentando rivalidades, histórias de amor e confrontos territoriais nas redes sociais. “É tipo Game of Thrones”, disse Chong. “Você percebe que todo mundo está apenas tentando sobreviver.”

Recentemente, Chong vasculhou os canais em busca de Tia Zouk, uma lontra que ela vinha seguindo há anos. Durante semanas, Chong e uma equipe de voluntários ajudaram Tia Zouk e seu companheiro a cruzar uma estrada de cinco pistas até Marina Bay. Eles apertaram os botões da faixa de pedestres nos semáforos e acenaram para que os carros parassem - e elas pudessem atravessar.

Mas nem todos os moradores acham bonito. Lynette Foo, de 32 anos, estava em casa com seu bebê quando viu umas dez lontras passarem por sua casa e comerem os 40 peixes koi que ela mantinha no lago do quintal. “Foi como se elas estivessem em um bufê”, disse. “Elas estão virando um incômodo.”

A frustração aumentou durante a pandemia, quando as restrições mantiveram as pessoas em casa e deixaram aos animais soltos na cidade. No ano passado, após uma série de ataques de lontras a lagos de carpas, um crítico escreveu ao jornal Straits Times pedindo que os animais fossem abatidos com balas de borracha. 

Foi uma comoção, e até o primeiro-ministro, Lee Hsien Loong, que encontrou uma família de lontras no quintal, tomou partido. “Os cingapurianos devem encontrar maneiras de coexistir com nossa flora e fauna locais”, escreveu ele em um post no Facebook.

Mas as lontras não são os únicos animais que voltaram. Javalis e macacos também. Em fevereiro, um javali saltou de uma moita e atacou uma mulher, arrastando-a por um metro até que um entregador de comida o assustasse com a bicicleta. Em junho, uma família de macacos foi vista escalando um prédio.

Preocupado com a invasão dos bichos, um centro de pesquisa de Cingapura criou uma equipe de gestão de conflito entre animais e moradores. “Haverá resistência”, disse Anbarasi Boopal, diretora da organização. “Mas eu digo às pessoas, não podemos treinar os animais, mas posso treinar você.”  

 

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