Imagem Lourival Sant'Anna
Colunista
Lourival Sant'Anna
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Luz amarela nos EUA

A vitória nas primárias de Indiana e a desistência do senador texano Ted Cruz e do governador John Kasich, de Ohio, significam que, a menos que faça uma manobra que causará uma perigosa fratura entre a cúpula e a base, o Partido Republicano terá o candidato a presidente mais improvável de sua história. Donald Trump será a primeira pessoa que nunca teve cargo eletivo a disputar a presidência por um dos grandes partidos americanos desde Dwight Eisenhower. Com a diferença de que o general Eisenhower comandou a vitória aliada na 2.ª Guerra.

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2016 | 03h00

Trump é um bilionário do setor imobiliário, o que não deixaria de ser uma credencial, no epicentro do capitalismo mundial. Mais contundentes, no entanto, que a sua falta de experiência política têm sido as suas posições. Ele insinuou que os imigrantes mexicanos são estupradores e assassinos, e vai cobrar do vizinho do sul pela ampliação de uma barreira para proteger os Estados Unidos de sua entrada. Prometeu bloquear a entrada de muçulmanos no país. Disse que vai romper com o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) e impor tarifas de importação de 45% sobre os produtos chineses.

A atuação - no sentido teatral - de Trump revirou os instintos e conteúdos dos americanos de tal forma que se tornou impossível ficar indiferente a ele. Ou se ama ou se odeia o bilionário, com a mesma intensidade. 

Hillary Clinton, embora tenha sido derrotada em Indiana por seu adversário de esquerda Bernie Sanders, será a candidata do Partido Democrata, a menos que algo inteiramente imprevisto aconteça. É, em muitos sentidos, a antítese de Trump: foi primeira-dama, senadora por Nova York e secretária de Estado. Representa o establishment fora e dentro de seu partido, no qual o sobrenome Clinton é sinônimo de domínio sobre a máquina partidária. Exatamente por esse motivo, ela tem algo muito importante em comum com Trump: uma rejeição tão grande quanto o seu próprio apoio.

Pesquisa do Instituto Ipsos para a agência de notícias Reuters revela que 47% dos eleitores de Trump o apoiam principalmente para evitar a eleição de Hillary. Outros 43% disseram que votarão no bilionário por causa de suas posições políticas, e 6%, por gostarem dele pessoalmente. A situação entre os eleitores de Hillary é um espelho disso: 46% votarão nela porque não querem ver Trump presidente; 40%, porque concordam com suas posições políticas; e 11%, por gostarem dela pessoalmente.

Como se vê, essa será uma disputa para ver quem é menos rejeitado. É um ponto de partida extremamente perigoso para uma corrida presidencial. Se cada candidato decidir potencializar a rejeição do outro apontando os defeitos do adversário, essa poderá ser a campanha mais negativa e menos propositiva dos últimos tempos. 

Nas últimas semanas, pesquisas vinham mostrando que fatias consideráveis dos eleitores de Cruz, de Kasich e de Sanders se recusavam a votar em Trump e Hillary, respectivamente. Entretanto, na medida em que as candidaturas se consolidam, isso tende a diminuir. Sondagem de quarta-feira divulgada pela emissora CNN mostra que 86% dos eleitores de Sanders preferem Hillary a Trump. A situação do bilionário é menos confortável: 70% dos eleitores de seus adversários republicanos nas primárias o apoiam na disputa contra a democrata.

Embora a rejeição seja um problema para ambos, Trump terá de se esforçar muito mais que Hillary para se viabilizar como candidato. Sua rejeição entre as mulheres atinge 70% e elas são a maioria do eleitorado. A conta, para ele, simplesmente não fecha se não conquistar parte do voto feminino. Vai ser interessante assistir a esse cortejo. Trump também tem severos problemas com os latinos e os negros, enquanto essas minorias representam bases eleitorais para Hillary, o que ficou demonstrado nas primárias. 

Sanders angariou apoio dos trabalhadores brancos com grau de instrução mais baixo, atraídos por seu discurso contrário ao livre comércio, que na sua visão exportou empregos industriais. Mas a virtual candidata democrata também sofre de grandes vulnerabilidades: pesquisa de boca de urna indicou que pouco mais da metade dos democratas que foram votar nas primárias de Indiana, na terça-feira, a considera honesta e confiável.

Tudo isso indica que uma grande fatia do eleitorado americano não se identificará com nenhum dos candidatos - nem, portanto, com o próximo presidente. Em si, isso não seria um problema, se a principal razão não fosse a falta de confiança no sistema político. Isso está acontecendo com o presidencialismo mais avançado do mundo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.