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A nova guerra na Síria

Após quase sete anos, a guerra civil acabou na Síria. Deu lugar a uma guerra entre potências regionais e globais

Lourival Sant'anna, O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2018 | 06h00

Após quase sete anos, a guerra civil acabou na Síria. Deu lugar a uma guerra entre potências regionais e globais. Os combates envolvem Rússia, EUA, Turquia, Irã, Israel, curdos, árabes seculares, Estado Islâmico, Al-Qaeda e Hezbollah, além do regime sírio.

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A nova dinâmica do conflito envolve realinhamentos espetaculares. Na terça-feira, a guerrilha curda Unidades de Proteção Popular (YPG) pediu a intervenção do regime sírio para conter o avanço das forças turcas sobre a região de Afrin, de maioria curda, no norte da Síria.

No mesmo dia, o regime deslocou de Idlib, no noroeste, milícias xiitas patrocinadas pelo Irã. Recebidas por fogo de artilharia turca, elas conseguiram avançar até a cidade de Afrin. A TV síria exibiu imagens de moradores na praça principal, celebrando com cartazes do ditador sírio, Bashar Assad, e do líder curdo Abdullah Ocalan, condenado à prisão perpétua na Turquia por sedição.

A YPG lidera as Forças de Defesa Democráticas (SDF), frente rebelde apoiada pelos EUA, composta também por guerrilheiros árabes seculares. Foi a primeira vez, nesses sete anos, que os americanos, os curdos e os rebeldes árabes estiveram do mesmo lado das ditaduras síria e iraniana.

Turquia solicitou no mês passado à Rússia autorização para invadir a Síria, no âmbito de sua operação sarcasticamente intitulada Ramo de Oliveira. Os russos propuseram à YPG que aceitasse a entrada das forças pró-sírias na região de Afrin. Em troca, impediriam a incursão turca. 

A YPG recusou. Os russos, então, deixaram os turcos entrar. Sob cerco, os curdos pediram água. A condição síria para intervir foi assumir o controle da região. Para os curdos, ameaças existenciais são algo familiar. Escolhem rapidamente de que lado ficar.

O objetivo da operação militar Ramo de Oliveira é evitar a formação de um corredor curdo entre o norte da Síria e o sudeste da Turquia. Os russos, que controlam o espaço aéreo sírio, haviam concordado com a intervenção turca, desde que fosse para causar uma divisão na Hayat Tahrir al-Sham (Organização para a Libertação do Levante), frente jihadista comandada pela Al-Qaeda. 

Na qualidade de patrocinadora do grupo, a Turquia poderia isolar as células moderadas extremistas, para que essas fossem aniquiladas pelas milícias xiitas pró-Síria com apoio russo. Esse era o plano. Entretanto, a prioridade turca é eliminar os curdos, não seus antigos ou atuais aliados islâmicos.

Os americanos vinham sugerindo aos curdos que firmassem um pacto com o regime sírio, tendo os russos como fiadores. Isso porque a defesa de Afrin da ameaça turca representa uma distração do objetivo americano: empregar a SDF para eliminar o Estado Islâmico (EI) na Síria. Dos 30 mil combatentes da SDF, 20 mil são curdos. Parte deles foi deslocada do combate contra o EI, em Deir es-Zour, nordeste da Síria, para Afrin.

Tanto para curdos quanto para árabes seculares é desconcertante ceder território ao regime sírio. Afinal, Afrin é uma região curda. E o Exército Sírio Livre, que reúne os árabes seculares, foi formado para derrubar Assad.

A Rússia quer manter no poder Assad, seu aliado. O Irã, em sua rivalidade com a Arábia Saudita, quer consolidar sua projeção no Oriente Médio – já ampliada graças à introdução da democracia no Iraque, de maioria xiita, com a invasão americana de 2003; e com o poder exercido pelo Hezbollah, do qual é patrocinador, no Líbano. Israel tem se envolvido cada vez mais, buscando reduzir a presença iraniana e evitando a transferência de armas do Irã para o Hezbollah, com quem travou uma guerra em 2006. 

Um ataque americano contra um comboio pró-sírio em Deir es-Zour matou dezenas de mercenários russos (a Rússia evita usar tropas regulares na região). Além de erradicar o EI, os EUA gostariam de ver a saída de Assad, ainda que o regime se mantivesse. Mas não é nessa direção que o vento está soprando.

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