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Lourival Sant'Anna: Encontro histórico entre Trump e Kim

Na Coreia do Sul, a conversa sobre um possível acordo leva as pessoas a falar da reunificação

O Estado de S.Paulo

10 Junho 2018 | 05h00

Foram seis meses vertiginosos para os sul-coreanos, desde que o ditador Kim Jong-un estendeu a mão ao presidente Moon Jae-in, na mensagem de ano-novo. Os seis meses anteriores também tinham sido frenéticos, mas na direção contrária: a Coreia do Norte testando mísseis de longo alcance, bombas atômicas e ameaçando o mundo com uma hecatombe nuclear.

Escrevo de Seul, e a percepção dos sul-coreanos sobre os ganhos e perdas da aproximação com os seus vizinhos depende da idade. Os mais velhos sentem uma proximidade maior em relação à Coreia do Norte e aos horrores da Guerra da Coreia (1950-53). Para eles, a pacificação e a eventual reunificação não têm preço.

Já os mais jovens têm uma relação muito mais pragmática com essa questão. Eles consideram que a pacificação da península pode ser boa para a economia. Mas não conseguem se imaginar vivendo em um mesmo país que os norte-coreanos. 

Desde 1905, quando o Japão ocupou a Coreia, os coreanos não vivem juntos sob um governo independente seu. E, desde 1945, estão fisicamente separados entre Norte e Sul. Nesse período, seguiram por caminhos opostos: o Norte se transformou num Estado totalitário que subjuga seu povo de forma única no mundo, e o Sul, em uma democracia capitalista extremamente avançada, um centro de consumo e inovação.

Teoricamente, é claro que a distensão não conduz necessariamente à reunificação. Os dois Estados poderiam conviver pacificamente. Kim Jong-il, o pai do atual ditador norte-coreano, elaborou a proposta de um Estado federal, com “um país e dois sistemas”, que preservaria os dois regimes.

Mas, sobretudo na Coreia do Sul, a conversa sobre um possível acordo leva as pessoas naturalmente a falar da reunificação. O exemplo alemão é bastante vivo. Tanto no que diz respeito ao custo quanto aos benefícios. Mas a distância econômica, social e cultural da Coreia do Norte em relação à do Sul é bem maior do que entre as Alemanhas Oriental e Ocidental, e os sul-coreanos intuem isso.

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A sensação de que não existe um ponto de equilíbrio entre as tensões contínuas e a reunificação, ou seja, uma paz estável entre os dois países, está fincada na experiência de sete décadas de divisão. Moon, Kim e agora Donald Trump estão trilhando um caminho desconhecido. Os acordos anteriores fracassaram, com as partes se acusando mutuamente de descumprimento.

Mas agora há uma diferença importante: a Coreia do Norte consolidou seu status de potência nuclear, e se sente em posição de força para negociar de igual para igual. Do ponto de vista norte-coreano, o objetivo maior da aproximação é a sobrevivência do regime. Kim tem caminhado sobre um fio de navalha. Ele sabe que é arriscado manter o atual patamar de gastos militares enquanto seu povo vive na miséria. As sanções americanas, e a possibilidade de sua retirada, são um incentivo importante nesse sentido.

Por outro lado, o Exército é a base do seu poder e ele vê o arsenal nuclear e os mísseis de longo alcance como sua proteção contra uma invasão americana. A pacificação permitiria que ele deslocasse os gastos da defesa para a infraestrutura e a elevação do padrão de vida dos norte-coreanos. Mas abrir mão de seu arsenal seria um ato suicida.

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Para a Coreia do Sul, as tensões têm um alto custo, não só material, mas político. Elas consomem a energia do governo e enfraquecem o país em suas disputas regionais, sobretudo com Japão e China. Diante do enorme sucesso do sistema econômico sul-coreano, o processo parece levar inevitavelmente à absorção do Norte pelo Sul. Mas a realização pacífica disso, como ocorreu com a Alemanha Oriental, simplesmente não está no horizonte.

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