Maxim Shemetov/ Reuters
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Lourival Sant'Anna
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Nacionalismo e futebol

Em tempos de tribalismo, o esporte tem algumas lições a ensinar para a política

O Estado de S.Paulo

15 Julho 2018 | 05h00

A Copa é sempre um retrato do mundo. A presença de jogadores croatas, sérvios e kosovares expôs na Rússia as feridas abertas dos Bálcãs. Na estreia contra a Costa Rica, dia 17, a seleção sérvia tomou uma multa da Fifa, no valor módico de 10 mil francos suíços (R$ 38.500). Alguns torcedores exibiram uma bandeira dos chetniks, a brigada sérvia que resistiu ao nazismo, mas também cometeu atrocidades durante a 2.ª Guerra.

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Ao celebrar a vitória por 3 a 0 contra a Argentina, dia 21, jogadores croatas cantaram no vestiário a música Bojna Cavoglave, da banda Thompson (marca de metralhadora). Ela enaltece a valentia dos croatas contra os sérvios na Batalha de Cavoglave. O jogador Dejan Lovren filmou a cantoria.

A música diz: “Dispare Thompson, AK-47 e velhas espingardas também, jogue a granada, cace os chetniks através do rio. Passo a passo, armas prontas, todos cantam: pelo lar, irmãos, pela liberdade, estamos lutando agora. Ouçam, voluntários paramilitares sérvios e chetniks: vocês não podem escapar das mãos da Justiça, nem mesmo na Sérvia. Vocês não podem fugir da justiça de Deus, como todos sabem. Os guerreiros de Cavoglave serão seus juízes.” O vídeo da música encena uma batalha no rio, com os cantores fardados e armados.

No jogo seguinte, dia 22, a Sérvia enfrentou a Suíça. Granit Xhaka e Xherdan Shaqiri, jogadores de origem kosovar da seleção suíça, celebraram seus gols fazendo com as mãos a águia de duas cabeças, símbolo da Albânia. A maioria dos kosovares fala albanês e é muçulmana.

O Kosovo declarou, em 2008, sua independência da Sérvia, que não a reconheceu. O novo país inclui um enclave de maioria sérvia. Eu cobri esse conflito. Na cidade de Mitrovica, sérvios e kosovares estão separados apenas pelo Rio Ibar – e por tropas da Otan. Sérvios e croatas falam a mesma língua, o servo-croata, mas se distinguem pela religião. Os sérvios são em sua maioria cristãos ortodoxos e os croatas, católicos. 

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A presidente da Croácia, Kolinda Grabar-Kitarovic, chamou a atenção ao assistir aos jogos com a torcida. Populista conservadora, durante a campanha de 2014, ela foi fotografada com líderes ultranacionalistas e a bandeira da Ustashe, organização nazista e terrorista, que governou a Croácia durante a 2.ª Guerra.

“Nunca se deve misturar política e futebol”, declarou Vladimir Petkovic, técnico da Suíça, ao comentar a celebração de seus dois jogadores kosovares. O ex-meio-campista que assumiu a seleção da Suíça em 2014, conhece bem o labirinto étnico dos Bálcãs. Ele é o segundo croata da Bósnia (de maioria muçulmana) a treinar a seleção suíça. O primeiro foi Miroslav Blazevic, entre 1976 e 1978. 

Vinte anos mais tarde, a Croácia, dirigida por Blazevic, conquistaria o terceiro lugar, depois de perder para a França na semifinal.

NEste domingo, 15, Croácia e França se reencontram. Como todos, a França tem dívidas e créditos: foi berço do iluminismo, mas também do absolutismo. Colonizadora na África, Ásia e América Central, resistiu militarmente contra o fim da escravidão e a independência no Haiti (cujos rebeldes se inspiraram na Revolução Francesa) e na Argélia. Parte dos franceses colaborou com a ocupação nazista.

Todos os países têm contas a acertar com os direitos humanos. O esporte tem mais a ensinar à política do que o contrário. Ele oferece a chance de trocar o nativismo e a xenofobia por um patriotismo lúdico, com respeito pelo adversário. No esporte, a diferença é celebrada. O atleta sabe que a vitória só tem valor se o seu adversário também tiver. Nesses tempos de tribalismo, essa é uma lição que o esporte deve trazer para a política.

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