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Lourival Sant'Anna
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Uma guerra na Coreia

As tensões no Leste Asiático despertam duas perguntas entre os brasileiros: haverá guerra? E como ela afetaria o Brasil?

O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2018 | 05h00

As tensões no Leste Asiático despertam duas perguntas entre os brasileiros: haverá guerra? E como ela afetaria o Brasil? Afinal, no centro dos dois palcos mais importantes de disputas, a Península da Coreia e o Mar do Leste da China, estão os chineses, os maiores investidores no Brasil e compradores da soja brasileira. EUA, Japão e Coreia do Sul são outros países importantes para a economia mundial e brasileira.

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A análise de cenário na península envolve saber até que ponto a dissuasão nuclear se aplica à Coreia do Norte. Noutras palavras, o elevado custo humano e material serve de inibidor ou de catalisador? O embaixador Robert Wood, representante americano nas discussões da ONU sobre desarmamento nuclear, disse na terça-feira que a Coreia do Norte está a apenas meses de adquirir a capacidade de embarcar ogivas nucleares nos seus mísseis intercontinentais, com alcance para atingir o território dos Estados Unidos.

O presidente Donald Trump e seus auxiliares no setor de defesa têm deixado claro que não vão permitir que isso aconteça. O vice-presidente Mike Pence anunciou em Tóquio, ao lado do primeiro-ministro Shinzo Abe, as sanções “mais duras e agressivas” já adotadas contra a Coreia do Norte. Todos sabem que essas medidas, por si só, não deterão seu programa nuclear.

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Por outro lado, os Jogos de Inverno na Coreia do Sul, abertos na sexta-feira, estão servindo de oportunidade para um degelo entre os dois vizinhos. A aproximação foi selada com um aperto de mãos sem precedentes entre Kim Yo-jong, irmã do ditador norte-coreano, e Moon Jae-in, presidente da Coreia do Sul.

O objetivo evidente de Kim Jong-un é distanciar a Coreia do Sul de seu maior aliado, os EUA. Para o professor Akihito Tanaka, um dos principais especialistas japoneses em Leste Asiático, com quem estive na terça-feira em um debate em São Paulo, a aproximação das duas Coreias não tem grande fôlego, por causa dos objetivos irreconciliáveis dos dois vizinhos.

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Enquanto a Coreia do Sul busca a desnuclearização da península, a Coreia do Norte não abre mão de seu programa, que o regime vê como crucial para sua preservação. Já os norte-coreanos exigem a retirada das forças americanas da região, por sua vez vistas por Seul como condição para sua proteção. Entretanto, Tanaka acha “altamente improvável” uma guerra, pela falta de interesse de todos os atores envolvidos. Ele ressalva que não é impossível: “Afinal, Trump está no governo. E acidentes podem acontecer”.

O presidente está em guerra aberta com a comunidade de inteligência americana, sobretudo o FBI, que investiga o envolvimento de seus assessores, filho e genro com os russos. 

Se essas investigações evoluírem para uma situação insustentável para Trump, sua saída pode ser uma guerra, o clássico estratagema para unir a nação e desencorajar ofensivas contra o presidente. 

Em cena, a China, aliada da Coreia do Norte. Os chineses têm aumentado de forma exponencial seu orçamento de defesa, executado manobras provocativas nos Mares do Leste e do Sul da China, construído infraestrutura civil e militar na região, incluindo águas internacionais e ilhas que não são suas.

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Tanaka considera ainda menos provável a escalada dessas tensões para uma guerra: “A capacidade militar combinada de EUA, Japão e Coreia do Sul desencoraja a China”. Aqui, também, ele ressalva que o risco não é zero, por causa da possibilidade de acidentes e da própria dinâmica de um “ciclo vicioso” de ameaças.

Tudo isso representa para o Brasil mais um incentivo – entre tantos outros – para se tornar mais atraente aos investimentos e mais competitivo nas exportações. Colocar todos os ovos na cesta chinesa – ou em qualquer outra – não é prudente.

 

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