'Lousa da paz' salvou acordo com o Irã

Negociadores de Teerã pediram a americanos que parassem de entregar propostas em papel

O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2015 | 02h05

Faltavam poucas horas para o fim do prazo estipulado para chegar a um acordo entre as potências e o Irã quando negociadores de Teerã chamaram os representantes americanos e fizeram um pedido: não entreguem novas propostas de entendimento em papeis.

O pedido surpreendeu os negociadores que, então, pediram uma explicação. A resposta foi ainda mais inusitada: a equipe iraniana tinha orientação de enviar cada documento entregue pelos americanos para análise em Teerã, o que significava que autoridades nem sempre favoráveis ao acordo fossem consultadas. As propostas por escrito estavam, no fundo, criando um obstáculo para o entendimento.

A solução foi levar para dentro da sala uma lousa branca sobre a qual cada uma das propostas e modificações eram escritas pelas delegações. O que não era aceito era imediatamente apagado.

O acordo nuclear entre o Irã e os Estados Unidos foi resultado de oito dias de uma negociação em Lausanne que muitos chegaram a alertar que estava fadada ao fracasso. Mas ousadia, pressão, ameaças e criatividade abriram espaço para um entendimento que pode entrar para história. O Irã aceitou colocar seu programa nuclear sob controle internacional por 25 anos. Em troca, as sanções que estrangulavam o país seriam retiradas.

O Estado foi o único jornal brasileiro a estar no hotel durante os dias de negociação e, nos bastidores, o que se viu foi um esforço político inédito nas relações entre o Ocidente e o Irã para redesenhar o equilíbrio de forças da região.

Alojadas no hotel Beau-Rivage, as delegações de Europa, EUA, Rússia, China e Irã tiveram de superar obstáculos técnicos e políticos e reconstruir a confiança abalada por décadas de enfrentamentos.

Os dois principais atores do processo - o secretário de Estado americano, John Kerry, e o chanceler iraniano, Javad Zarif, chegaram no dia 26.

Tudo contava na operação, até mesmo a imagem passada à imprensa "rival". O americano chegou a sair uma vez por dia para uma volta de bicicleta, sob o argumento de que precisava relaxar e mostrar o lado "sedutor" da cultura americana. Ele, porém, era seguido por três seguranças em outras bicicletas, uma moto e dois carros.

O iraniano fazia questão de sorrir para cada um dos jornalistas estrangeiros, na esperança de desfazer a imagem do país que realiza mais execuções por ano no mundo.

Não faltaram as tentativas de outros atores de roubar a atenção. O chanceler russo, Serguei Lavrov, anunciou com dois dias de antecipação a existência do acordo. O chanceler francês, Laurent Fabius, abandonou a negociação em plena noite e retornou a Paris, num sinal de que o processo não caminhava.

O ambiente também era marcado pela presença de diferentes serviços de inteligência. Numa demonstração por parte dos americanos de que não confiavam nas linhas de telefone e de internet do hotel, as conversas entre Kerry e Obama ocorriam em uma tenda montada no jardim do local e com um sistema de comunicação totalmente independente do suíço.

Tática. Apesar do acordo, o resultado foi permeado por trocas de farpas e jogadas dos negociadores. O prazo original para um acordo era o dia 31 e os iranianos tentaram levar o processo até seu limite, na esperança de forçar a Casa Branca a ceder.

Ciente da estratégia de Teerã, Obama deu sinal verde para que Kerry ignorasse o prazo, enquanto elevou o tom das ameaças, sugeriu que poderia abandonar Lausanne e chegou a falar da "opção militar" contra instalações nucleares. A atitude deixou os iranianos enfurecidos.

A tensão se elevou quando um dos jornalistas levados pelo regime de Teerã para Lausanne fugiu do hotel e pediu asilo às autoridades suíças. Os ataques sauditas no Iêmen também contaminaram as conversas.

Mas a decisão de ambos os lados em não abandonar a mesa mostrava que muito estava em jogo e que ninguém estava disposto a voltar para suas capitais de mãos vazias.

As reuniões noturnas se transformaram em uma regra. Pelos corredores, negociadores com pastas, laptops, celulares e tablets tentavam decifrar a cada novo momento o impacto de uma mudança no texto.

Dois dias antes do anúncio oficial do acordo, já estava claro que um entendimento existia. Mas faltava transformar o compromisso em números de centrífugas e retirada de sanções.

Os negociadores precisaram buscar soluções mais criativas. Para solucionar o impasse sobre o destino do urânio enriquecido, a solução não foi nem a de transferir para um terceiro país, como queriam os EUA, nem a de manter, como queriam os iranianos. A opção foi a de vender o material no mercado internacional.

Para solucionar o destino de uma das usinas nucleares, a opção não foi a de destruí-la, mas transformar em um centro de pesquisas.

Aproximação. Nada do que ocorreu no Beau-Rivage foi da noite para o dia. Segundo diplomatas, o processo foi resultado de dois anos de intensas negociações, muitas vezes secretas. Diplomatas confirmaram que, nos oito dias de convivência diária nesta semana, a relação entre EUA e Irã mudou mais que em anos de contatos esparsos.

A aproximação se estendia aos jornalistas, empilhados em duas salas do hotel. Ali, a imprensa oficial chinesa, repórteres de burcas e apresentadoras russas passaram a compartilhar espaço, mesas, tomadas e até pistaches trazidos pelos iranianos.

A intimidade de oito dias dormindo pelos corredores causou cenas inusitadas, como a da delegação iraniana faminta no meio da noite devorar lanches do McDonald's. Numa das madrugadas, repórteres de Teerã usaram um piano do hotel para tocar canções do tempo do xá.

Enquanto a relação ganhava uma nova dimensão e superava estereótipos, os iranianos faziam apenas um pedido: a de que fotos do que ocorreu dentro do hotel não fossem divulgadas, sob o risco de serem criticados pelos grupos mais conservadores.

A mesma máxima valeu para a lousa branca que ajudou os negociadores a superar o impasse. Um deles, porém, usou uma caneta indelével para escrever números confidenciais de uma proposta. A solução: destruir a lousa e substituí-la para apagar qualquer rastro de como o diálogo foi possível.

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