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Lua de mel acaba logo

Muitos dos que votaram em Macron contra Le Pen já passaram para a oposição

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

09 Maio 2017 | 05h00

Emmanuel Macron presidente da república. Parece um conto de fadas, um truque de prestidigitação: um jovem desconhecido, sem experiência política – não foi nem deputado –, banqueiro e em seguida funcionário do alto escalão do governo, de repente, há um ano, lança-se na conquista do cargo mais elevado, quase estratosférico, da França: o Palácio do Eliseu.

Dez obstáculos intransponíveis, talvez cem, se interpõem no seu caminho. O super-homem os enfrenta, eles desaparecem, ou por um golpe de sorte ou porque os derrubou na luta. Seis meses dessa cavalgada e o triunfo: Macron é o vitorioso. Em torno dele, são recolhidos os cadáveres e feridos: dois ex-presidentes, três ex-primeiros ministros, deputados desagregados, senadores arruinados, ministros contundidos.

Macron não se contentou em ser o mais jovem presidente de toda a história da França, mas também foi eleito com uma vantagem enorme, raríssima, sobre sua rival Marine Le Pen, da Frente Nacional, obtendo 66% dos votos contra 33% de Marine.

Uma mágica. E essa mágica prenuncia um governo sem nuvens, com todos se curvando humildemente diante do jovem extraordinário? De modo nenhum. Macron até agora desfrutou das “vacas gordas”, mas tem um tendão de Aquiles. Aliás, tem vários. O maior deles envolve exatamente a votação elevada que conseguiu: 66%. Na realidade esse escore é uma ilusão, um “conto do vigário”. Essa porcentagem é composta por 30% talvez de correligionários entusiastas do novo presidente.

O restante é formado pelos eleitores que votaram em Macron porque não tinham outra saída. Eleitores que no primeiro turno escolheram, sem sucesso, François Fillon (do partido Republicanos), Benoit Hamon (Partido Socialista) ou Jean-Luc Mélenchon (extrema esquerda). E se no segundo turno votaram em Macron foi unicamente para impedir que Marine Le Pen se tornasse presidente. Na verdade, o triunfo de Emmanuel Macron é a sombra da aversão que a nacionalista causa nos franceses. Poderíamos dizer que Macron foi eleito por Marine Le Pen!

Isso significa que a posição do novo presidente é instável. Desde a manhã desta segunda-feira, derrotado o fantasma inquietante de Le Pen no domingo, uma parte dos que votaram em Macron já passou para a oposição. E vamos observar isso ocorrer muito rapidamente, pois as eleições legislativas (para a Câmara dos Deputados) serão realizadas em 11 e 18 de junho.

Macron conseguirá eleger a metade dos deputados a seu favor, o que lhe permitiria uma maioria estável e mãos livres para governar? Para obter esse resultado será preciso “sorte” de novo porque, face aos jovens soldados de Macron estarão se opondo os fanáticos de Marine Le Pen e os partidários de Mélenchon. Claro que os socialistas foram derrotados pelo resultado da aventura solitária de Macron, mas, em todo caso, ainda há muitos republicanos e muitos “mélenchonistas”.

A pergunta, então, é essa: na falta de uma maioria, como ele conseguirá governar? Terá de fabricar maiorias sucessivas e sob medida, em função das leis ou medidas propostas pelo Eliseu? Improvável e paralisante. Ou então tentará uma “coabitação”, ou seja, um presidente com uma determinada inclinação (no caso de Macron, pró-Europa, liberal e social) e um primeiro-ministro de outra tendência compatível. É um dispositivo barroco, mas que já funcionou – e, pelo menos uma vez, muito bem, com Jacques Chirac (direita) e Lionel Jospin (socialista) em 1997.

Certamente, com Emmanuel Macron não sabemos nunca. Ele realizou tantos milagres nestes últimos seis meses... Mas não vamos criar muitas ilusões. Esse “estado de graça” logo acabará. E ele avançará em meio a uma chuva de projéteis.

Todas as capitais comemoraram a vitória relâmpago e esplêndida de Macron. Até mesmo Donald Trump! Mesmo Theresa May e o presidente da China. Mas, sobretudo, as capitais defensoras da Europa, Berlim em primeiro lugar, onde Angela Merkel sonha com o que não conseguiu com o fraco François Hollande, ou seja, religar o motor franco-alemão. E também na Itália e na Grécia. Vladimir Putin foi a exceção: saudou o novo presidente com reticência. Claro que ele preferia Marine Le Pen.

Para os europeus, portanto, uma boa notícia. Um defensor da Europa em Paris pode ajudar a erigir uma frente contra populistas e fascistas que não querem de modo nenhum uma União Europeia, tampouco uma zona do euro.

A onda populista recuou nos últimos tempos em países gravemente atingidos como Áustria e Dinamarca. Mas não muito. Em Viena, como em Copenhague, os populistas continuam poderosos, exibindo sua cólera toda vez que veem um imigrante e tapando o nariz quando se fala em União Europeia ou zona do euro.

Na França, todos comemoram o fato de Macron frear Le Pen. Mas o fato é que a nacionalista e seus correligionários estão mais do que nunca presentes, nas sombras, e ouvimos mais claramente do que nunca o ruído dos seus grunhidos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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