'Lua de mel' com Peña Nieto chega ao fim

Para mexicanos, caso dos 43 estudantes desaparecidos no Estado de Guerrero ultrapassa todos os limites do tolerável

WHITNEY , EULICH , CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2014 | 02h01

O presidente do México, Enrique Peña Nieto, entrou esta semana no terceiro ano de seu mandato expressando seu orgulho pela aprovação de reformas históricas, como a da educação, da energia e das telecomunicações. Entretanto, em discurso pronunciado no Estado de Chiapas, na segunda-feira, ele disse: "Não estamos satisfeitos". E tampouco a sociedade.

O caso aterrador dos 43 estudantes sequestrados e supostamente massacrados em Iguala, no mês passado, ainda assombra Peña Nieto, seu governo e toda o país. Esse acontecimento brutal tornou-se o símbolo nacional da profundidade da corrupção, do poder dos grupos criminosos, da fragilidade da governança e da impunidade da polícia. Com a queda dos índices de aprovação do presidente e com a violência novamente no centro das preocupações, o governo sofre pressões para enfrentar de maneira agressiva os problemas que estão na raiz do caso.

O México assistiu a protestos de massa, inclusive na noite de segunda-feira. Na capital, os manifestantes carregavam cartazes com fotos do presidente com uma expressão confusa com os dizeres: "Fora Peña!"

"O grau de indignação da sociedade é muito profundo e hoje a credibilidade do presidente - na realidade, de todos os principais partidos políticos - está em jogo mais do que em qualquer outro governo que o antecedeu", afirma Claudio Lomnitz, diretor do Centro de Estudos Mexicanos da Universidade Columbia, de Nova York. "O que poderá afetar sua capacidade de pôr em prática alguma medida e, com mais quatro anos no cargo, isto será um problema."

Segundo pesquisa realizada em novembro pela Buendia & Laredo, 50% dos mexicanos não aprovam o trabalho de Peña Nieto, uma queda de 13 pontos porcentuais em relação ao ano passado. A maioria da população (52%) diz que o país está num caminho ruim ou muito ruim, isto é, a percepção do governo mais negativa dos últimos seis anos. Outra pesquisa, divulgada pelo jornal Reforma, na segunda-feira, apresentou resultados ainda piores: 58% de desaprovação de Peña Nieto, a menor já obtida por qualquer outro presidente mexicano em 20 anos.

Comunicação. Brisa Galan e Ivan Castillo saíram em passeata do Zócalo até o monumento icônico do Anjo, no centro da Cidade do México, na noite de segunda-feira, com as três filhas pequenas - uma adormecida no carrinho de bebê. "O problema é o governo. O presidente não se comunica conosco. O governo nos dá claramente a entender que não se importa conosco", afirma Brisa, psicóloga e organizadora de eventos. Ela diz que pretende continuar protestando com sua família porque quer "ensinar" suas filhas a não terem medo e a não serem indiferentes.

Também na segunda-feira, Peña Nieto enviou um pacote de reformas constitucionais para o Senado, com medidas de segurança, como a centralização do comando da polícia local, que passará a responder a agências estatais, e a atribuição do governo federal do poder de dissolver governos locais infiltrados pelos cartéis da droga. Seu plano de segurança, anunciado no dia 27 de novembro, incluía também uma linha telefônica nacional de emergência (911) e a adoção de novos documentos de identidade em âmbito nacional.

"Todos gostam de soluções simples para problemas complexos", diz David Shirk, diretor do Projeto Justiça no México da Universidade de San Diego. "Muitas das coisas propostas por Peña Nieto dizem respeito ao combate à corrupção, à proteção dos direitos humanos e dos cidadãos comuns, mas não vão até a raiz do problema: o combate à corrupção e o fortalecimento de instituições demasiado fracas".

A estudante secundarista Sharon Mondragon distribuiu jornais que falavam dos protestos na imensa Avenida Reforma, na Cidade do México, na noite de segunda-feira. Ela disse que gostaria que o presidente fosse destituído do cargo. "Na realidade, precisamos começar do zero. Fazer uma limpeza geral no governo e realizar novas eleições", disse Sharon.

As eleições de meio de mandato se realizarão no início do próximo ano. "No entanto, o problema maior está na rua e na opinião pública", segundo Chris Sabatini, diretor de política na Sociedade das Américas, em Nova York. "Não se trata apenas da questão da segurança."

Promessas. A campanha de Peña Nieto se baseou em dois pontos: melhorar a segurança, acabando, ao mesmo tempo, com a imagem de um "México sangrento" enfatizada pelos jornais, e implementando reformas que colocariam o México num novo caminho na área econômica.

No entanto, a violência e a criminalidade ainda constituem questões fundamentais e primárias. "Antes que suas reformas produzam frutos, em termos de crescimento econômico e de investimentos financeiros, ele ainda terá de resolver estas questões", disse Sabatini. "As pessoas se sentem decepcionadas." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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