Lucas Mendes: A caminhada do perpetrador

Colunista comenta a prática do 'perp walk' pela polícia nos EUA, em que acusados são levados algemados para serem fotografados pela mídia.

Lucas Mendes, BBC

26 de maio de 2011 | 05h33

Die-s-quei. Nem Obama teve o nome tantas vezes nas rádios e TVs nas últimas duas semanas. Die-s-quei é a pronúncia em inglês das iniciais D.S.K., de Dominique Strauss-Khan, o diretor-gerente do FMI que despencou e continua no fundo do poço. A imprensa americana usa a abreviação e não tem piedade.

Será que é porque Dominique é francês? Se antes do escândalo você fosse para a rua e perguntasse ao povo o que é IMF - a sigla do International Monetary Fund, inglês para Fundo Monetário Internacional -, 90%, talvez mais, não saberiam ou diriam bobagem. Agora sabem que é um banco, mas ainda acham que é um "Bolsa Família" mundial sustentada pelos americanos.

Os americanos não perdoam a falta de apoio dos franceses em suas intervenções internacionais e a maioria não sabe que, se não fosse pelos franceses, a independência americana poderia ter levado muito mais tempo, sofrimento e sangue. Para os americanos, com exceções preciosas, os franceses foram frouxos na Segunda Guerra e são um bando de frescos que gostam de férias, grifes, sexo, comida e vinho.

"Um chimpanzé no cio", foi uma das descrições dos tabloides sobre o suposto ataque de Dominique a uma camareira africana do hotel. As fotos nas primeiras páginas do chimpanzé devastado com manchetes implacáveis não davam nenhuma margem a defesa ou pena.

Visto pelos franceses o "ataque" tinha outras explicações, entre elas a de que seria uma armadilha para destruir a candidatura do provável futuro presidente da França. Acima de tudo, era inaceitável o tratamento dispensado ao banqueiro. O filosofo Bernard-Henri Lévy e outros intelectuais franceses espumavam nas redes americanas por causa do perp walk - como é conhecida a caminhada de um acusado, geralmente algemado, para registro da mídia.

Dane-se a camareira africana que escapou do estupro. O crime era o diretor-gerente do FMI humilhado no perp walk, "a caminhada do perpetrador". A palavra nunca é usada pela nossa imprensa. Além de feia, não cabe no jornal.

Como a Justiça americana admite esta condenação prévia dos suspeitos, numa exibição que contraria a noção de presunção de inocência até a decisão do juiz ou do juri popular, perguntam os franceses? Os países europeus, com exceção da Inglaterra, têm sistemas de investigação mais fechados do que o americano. O réu só é exposto ao público, algemado ou colocado do carro, depois da condenação.

O perp walk é uma clássica caminhada americana promovida pela polícia. Suas origens não são precisas. Edgard J. Hoover, o canalha e implacável diretor do FBI, teria sido pioneiro da caminhada dos suspeitos na sua luta contra os gângsteres de Al Capone. Há tantas versões da caminhada humilhante na enciclopédia que você chega a pinturas de Adão e Eva sendo expulsos do paraíso.

Nos Estados Unidos, a passarela do suspeito saindo da delegacia para o tribunal varia de Estado para Estado, mas, em Nova York, quem é acusado de um crime sério como Die-s-quei quase nunca escapa da caminhada. Alguns, como a milionária, Martha Stewart, celebridade milionária de casa, jardim, cozinha e TV, escaparam porque se apresentaram no tribunal quando o indiciamento estava sendo emitido pelo juiz.

Na maioria dos casos, os suspeitos são levados para a delegacia e, depois de um ou dois dias, diante da imprensa, saem para para o tribunal para o indiciamento. Banqueiro poderoso ou engraxate, este é o momento da humilhação e, para muitos, da sensação de justiça feita. Na realidade, a maioria daqueles milionários e bilionários que são algemados diante dos colegas, como a gente vê nos filmes e nos dão aquela preciosa sensação de que todos somos iguais perante a lei, acabam soltos, refazem suas vidas e seus milhões.

Pobre rico Dominique, pobre rica camareira. Pelas evidências de DNA, depoimentos na imprensa o francês vai pegar cana firme e a africana vai fazer dinheiro com direitos autorais de livros e filmes. Talvez compensem o trauma do encontro com o chimpanzé gaulês.

Numa mesma semana tivemos dois escândalos envolvendo dois europeus poderosos. O do francês Die-s-quei e o do exterminador austríaco Arnold Schwarzenegger - com duas empregadas. Um consentido e bem pago, outro rejeitado.

Dominique e Arnold tinham fichas sujas não na polícia, mas eram suspeitos na imprensa. No YouTube há imagens do ex-governador da Califórnia como um chimpanzé no cio com brasileiras no Rio.

O escândalo com a doméstica Mildred, a única empregada latina que não se chama Maria, debocham os comediantes, vai provocar investigações sobre os gastos do governador e sobre como usou a polícia para levar mulheres para seus encontros. Desde então apareceram seis mulheres com filhos dele. Vamos ver o ex-governador da Califórnia na caminhada do perp? Provavelmente não. Ele irá ao tribunal antes da polícia chegar à casa dele.

Como as sofisticadas imprensas americana e francesa não viram nada durante mais de vinte anos e, se viram, fecharam os olhos? Maria Shriver, mulher de Arnold, era uma famosa jornalista na TV americana, e Anne Sinclair, casada com Dominique, durante anos foi a mais famosa entrevistadora da televisão francesa. Jornalista não vê o que acontece em casa? BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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