Lucas Mendes: O vai-e-vem den Wei Wei

Colunista comenta trajetória de artista chinês que se tornou 'persona non grata' em seu país.

Lucas Mendes, BBC

19 de maio de 2011 | 05h51

Jasmim, a planta e a flor, estão proibidas na China. Não podem mais perfumar as casas nem os jardins públicos e quem vivia da venda da planta está em apuros. O jasmim é suspeito de atividades subversivas, inspirador da revolução no mundo árabe que começou na Tunísia e ganhou o nome jasmim, a flor da casa. No dicionário há 40 tipos de jasmins, inclusive o jasmim vermelho. Quando era criança, meu pai punha a família no carro e íamos cheirar o perfume do jasmim noutro bairro não muito distante. Descíamos e cafungávamos ao lado do muro de onde vinha o cheiro.

O banimento da flor na China foi na semana passada, decorrente de protestos políticos, em fevereiro, inspirados na revolução da Tunísia que derrubou uma ditadura de 30 anos.

O artista Ai Wei Wei já estava na prisão quando a flor foi proibida. Aos 53 anos, gordo com problemas de pressão alta e diabetes, provoca o regime chinês em regime de tempo integral, 24 horas por dia, sete dias por semana.

Quando está solto, ele insulta o Comitê Central do Partido Comunista. Na prisão, ele só pensa em novas formas de infernizar a vida os comunistas. Numa das suas obras proibidas, ele está nu, num salto com as pernas abertas segurando uma máscara que cobre as partes íntimas. O título é "Grass Mud Horse Covering the Middle" e soa, em chinês, como "Fuck Your Mother The Communist Party Central Committee. Não pode ser traduzido para o português neste site.

O Grass Mud Horse, um cavalo de lama da grama, é uma de dez figuras míticas que os ativistas chineses usam para insultar o governo. Há uma variedade extraordinária de frases, símbolos e códigos que os ativistas chineses criaram para burlar ou provocar os censores, a maioria muito difícil de ser entendida e traduzida para o inglês.

Doze esculturas de bronze de Ai Wei Wei estão expostas no Central Park em Nova York, nenhuma delas censurada ou insultuosa. São doze bustos de animais que representam o zodíaco tradicional chinês e foram inspiradas num relógio de uma fonte que está na cidade imperial Yuanming Yuan. Aqui no parque estão ao pé da estátua da deusa romana Pomona.

Ai Wei Wei chegou a Nova York com 32 anos já com a cabeça feita, mas a cidade irrigou suas ideias anticomunistas e, desde então, tem profundas conexões aqui, inclusive um apartamento no bairro de Chelsea.

Ele saiu da China em 79, quando Deng Xiao Ping acabou com o movimento Democracy Wall do grupo Stars, do qual ele fazia parte. O líder foi condenado a 15 anos de prisão. Assombrado pela repressão, ele veio estudar na Parsons School of Design, uma escola de arte, e morar na rua 7 com a Segunda Avenida, no East Village, numa área que eu conhecia muito bem porque morei lá 5 anos, na rua 3 com Segunda avenida.

O Hélio Oiticica, outro revolucionário das artes, morava entre as ruas 5 e 6 na segunda avenida e Rubens Gerchman tinha um estúdio lá perto, na Broadway, mas que eu saiba nenhum dos dois conheceu Ai Wei Wei. Nem eu.

Muito artistas dizem que o East Village já estava careta. Provável. Até eu morava lá, mas Ai Wei Wei achava que o bairro emitia a mais poderosa energia, "como um vulcão sempre soltando fumaça".

Filho de um poeta famoso na China que tinha sido perseguido na Revolução Cultural, Wei Wei chegou com alguns contatos, entre eles o poeta Allen Ginsberg que gostava de ler para ele, mas vivia como artista pobre num apartamento de um quarto. O prédio tinha cheiro de urina e a única mobília do artista era um colchão no chão.

Ai Wei Wei se dava bem nos trabalhos de estúdio, mas se encheu da escola porque "não tenho o menor interesse em saber sobre as amantes de Picasso".

Foi caseiro, jardineiro, babá, pedreiro, fotógrafo freelance do New York Times e pintor, mas não conseguiu furar o cerco dos artistas plásticos na cidade.

Uma mulher influente do mundo das artes tentou apresentá-lo ao Museu de Arte Moderna, o MOMA, mas não foi recebida nem pela secretária do curador.

Fora da pintura e da fotografia, a paixão de Ai Wei Wei era jogar Black Jack, 21 no Brasil, nos cassinos de Atlantic City. Arriscava tanto que os cassinos mandavam limusines buscá-lo no East Village e davam a ele suíte, bebida e comida de graça. Um parceiro de mesa, Snake Eyes, Olhos de Serpente, um ex-presidiário que jamais seguia conselhos dos outros, uma noite ouviu o que Wey Wey dizia e ganhou uma baba. Ficaram amigos.

Voltou para a China quando o pai ficou doente e, sem entender nada de arquitetura, construiu um complexo de prédios chamado East Village nos subúrbios de Pequim, inspirado na Factory de Andy Warhol. Qualquer pessoa entrava a qualquer hora do dia ou da noite.

O modelo de construção dele fez tanto sucesso que construiu outros 60 prédios na China e foi consultor do famoso Ninho de Pássaros, sede dos Jogos Olímpicos de Pequim. Hoje, não constrói mais nada e acha tudo que construiu um lixo, inclusive o Ninho.

Concentra sua arte e energia em dois inimigos: o governo chinês e os artistas que não lutam contra o governo.

Se passar por Nova York vá ver Ai Wei Wei no Central Park, um cri-cri genial na arte de criar casos. Vai, vai, Wei Wei.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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