Lugo anuncia formação de governo paralelo e amplia crise no Paraguai

O presidente deposto do Paraguai, Fernando Lugo, começou ontem uma campanha ativa para minar a legitimidade do governo de Federico Franco, que assumiu após o impeachment que o tirou do poder na sexta-feira. Ao mesmo tempo que Franco anunciava nomes para nove ministérios, Lugo reuniu-se pela manhã com um "gabinete paralelo", que tentará organizar a oposição.

ROBERTO SIMON , ENVIADO ESPECIAL / ASSUNÇÃO, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2012 | 03h03

As chances de Lugo retornar à presidência, porém, são praticamente nulas. Ontem, a Suprema Corte voltou a afirmar que sua deposição pelo Congresso - em 36 horas - não violou a Constituição. Uma ação de inconstitucionalidade havia sido impetrada pelo presidente destituído na sexta-feira, enquanto senadores votavam o impeachment, mas ontem o tribunal rejeitou definitivamente o pedido. O Judiciário também rejeitou um pedido de antecipação das eleições presidenciais do ano que vem.

Na sede do Partido País Solidário (PPS), o ex-bispo reuniu o que chamou de "gabinete para a restituição democrática" e convocou "todas as forças que querem resistir a Franco" a participar da aliança. Na sexta-feira, Lugo havia acatado a decisão do Congresso, por imensa maioria, de derrubá-lo. No entanto, no domingo, ele disse que havia aceitado a decisão para "evitar um banho de sangue no Paraguai".

Agora, o presidente deposto tenta ampliar a campanha de isolamento, dentro e fora do Paraguai, do governo de Franco. Mas, sem força nas ruas, Lugo começou a apostar na crescente pressão dos países sul-americanos sobre o Paraguai. Na reunião de ontem com seus aliados, o ex-bispo comparou-se ao hondurenho Manuel Zelaya, deposto num golpe em 2009, e disse que pretende ir à cúpula do Mercosul na Argentina, quinta e sexta-feira, para "explicar detalhadamente" o que ocorreu no Paraguai.

Os mais importantes países da América do Sul retiraram ou convocaram para consultas seus embaixadores em Assunção.

O novo chanceler paraguaio, José Fernández Estigarribia, chamou de "piada" o gabinete paralelo de Lugo. O ministro criticou também a decisão dos países do Mercosul de suspender o Paraguai das próximas reuniões do bloco, incluindo a desta semana, em Mendoza. "É curioso que países que nos pressionam, reclamando da brevidade do prazo de julgamento (do presidente Lugo), agora nos sancionam sem escutar a nossa defesa", disse.

Em uma assembleia ontem no centro da capital, integrantes do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), de Franco, prometeram realizar uma marcha em solidariedade ao novo governo. No entanto, poucos paraguaios parecem acreditar que o país viverá em breve grandes jornadas de protestos, tanto de "luguistas" quanto de governistas.

"As coisas estão calmas e, conhecendo bem o Paraguai, se nada ocorreu até agora nas ruas, não vai mais ocorrer", afirmou Esteban González, engraxate de 73 anos da Plaza Uruguay, a algumas quadras do Parlamento. "Eles vêm e vão. Nós continuamos por aqui."

Venezuela. O Mercosul ainda não definiu a extensão da suspensão do Paraguai, mas diplomatas uruguaios e argentinos disseram ontem que ela pode abrir caminho para a adesão da Venezuela como membro pleno do bloco.

Até agora, a única instância que impedia a entrada da Venezuela era o Senado paraguaio, que não ratificou o pedido de adesão - as decisões do bloco sobre o tema devem ser tomadas por unanimidade.

O comunicado de ontem da chancelaria argentina deixa em aberto a aplicação de uma cláusula que suspende os direitos e obrigações do Paraguai - um deles é o de ratificar a entrada de novos membros. Se Brasil, Argentina e Uruguai colocarem o assunto em pauta, não haveria nenhuma voz discordante e abririam o caminho para Caracas.

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