Lugo enfrenta primeira crise política no Paraguai

Há duas semanas no cargo, presidente tenta romper impasse no Legislativo

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

30 de agosto de 2008 | 00h00

Apesar das expectativas, as primeiras semanas do governo do novo presidente paraguaio, o ex-bispo Fernando Lugo, foram marcadas por poucos anúncios de mudança e muitas acusações contra o governo anterior, de Nicanor Duarte.Autoridades recém-empossadas prometeram investigar irregularidades em promoções de funcionários públicos e denúncias de corrupção em diversos órgãos governamentais, além da Hidrelétrica de Itaipu. O novo titular da pasta de Agricultura, Candido Vera, relatou o desaparecimento de máquinas agrícolas de grande porte de seu ministério e o porta-voz da presidência, Miguel López, chegou a acusar Duarte de ter roubado a cadeira presidencial. O turbilhão de denúncias já era esperado. Lugo assumiu o poder no dia 15 prometendo varrer a corrupção do Paraguai - e boa parte das acusações é bem fundamentada. "A vitória de Lugo acabou com 61 anos de hegemonia do Partido Colorado e é natural que a antiga oposição, ao tomar o poder, queira ?passar a fatura? de todos esses anos em que os aliados de Duarte fizeram o que bem entenderam do aparato estatal paraguaio", diz o analista político Alfredo Boccia. "A gestão colorada nunca se caracterizou pela honestidade e agora virão à tona as irregularidades possibilitadas pela confusão entre Estado e partido."A questão é ver se Lugo conseguirá promover os expurgos e investigações necessários sem deixar que o clima de "caça às bruxas" provoque uma reação da oposição que torne o país ingovernável. BOICOTEO tamanho do desafio pode ser medido pela polêmica no Senado que, na semana passada, paralisou o Legislativo. A crise começou em julho, com senadores governistas boicotando as sessões do Senado para impedir a posse de Duarte. O argumento dos aliados de Lugo é que, por ser ex-presidente, Duarte deveria assumir como senador vitalício - com direito a voz, mas não a voto nem a salário. Mas quando era o chefe do Executivo Duarte conseguiu se candidatar depois de obter um parecer favorável da Justiça Eleitoral. Ele foi o senador mais votado nas eleições de abril, mas a questão ainda é controversa (segundo alguns juristas, a candidatura é proibida pela Constituição). O ex-presidente prestou juramento na quarta-feira, em uma sessão esvaziada, mas sua posse foi invalidada no mesmo dia pela maioria governista. Preocupado com a paralisação do Legislativo, Lugo ameaçou convocar uma consulta popular se a crise não for resolvida. "Suponhamos que esse Congresso passe dois, três meses sem funcionar. Perguntarei aos cidadãos: ?Esse é o Congresso que vocês elegeram? É o comportamento que nós, paraguaios, merecemos? Um Congresso que está sendo pago e não funciona??", disse Lugo. A declaração foi interpretada pela oposição como uma ameaça de convocar eleições antecipadas. "Foi uma crise inesperada, com a qual Lugo não contava ao prever todas as dificuldades que teria ao começar a governar", diz Boccia. "Seus aliados estão apostando que parte da oposição não se manterá firme ao lado de Duarte - mas, se estiverem errados, a situação pode se complicar."A esse somam-se outros importantes desafios do novo presidente. O principal deles é aplacar a sede de reformas de movimentos sem-terra e grupos sociais que respaldaram sua vitória sem se embrenhar numa queda-de-braço com os empresários e a classe média, como na vizinha Argentina. Se Lugo não promover uma ampla reforma agrária, como havia prometido em campanha, trabalhadores rurais garantem que invadirão propriedades em diversas regiões do país. Se as mudanças forem consideradas "muito radicais", ganharão força os discursos que comparam seu governo ao do presidente venezuelano, Hugo Chávez. "Por enquanto Lugo tem preferido a prudência no que diz respeito ao anúncio de reformas", diz o analista político Bernardino Cano, da Universidade Nacional, em Assunção, para quem as denúncias de corrupção e a própria disputa no Senado são um processo saudável para a democracia paraguaia: "Elas são a prova de que, com a alternância de poder, temos um aumento da transparência." Na quarta-feira, o próprio presidente admitiu que os anúncios de mudanças devem demorar um pouco mais do que gostaria a maior parte dos movimentos sociais que o apoiaram. "Estou há apenas 11 dias no governo e como não sou político, sou um pouco lento em meus assuntos, embora muito seguro", disse Lugo. "Estamos construindo governabilidade", justificou-se.

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