Lugo faz 1 ano de mandato cercado de insatisfações

Governo não resolveu problemas crônicos do Paraguai

Ariel Palacios, BUENOS AIRES, O Estadao de S.Paulo

17 de agosto de 2009 | 00h00

O presidente paraguaio, Fernando Lugo, celebrou neste fim de semana seu primeiro aniversário no poder. O ex-bispo, que chegou à presidência no comando de uma colcha de retalhos que reunia conservadores, grupos de centro e organizações de esquerda radicais, além de camponeses e sem-terra, festejou tocando bateria com um grupo musical no centro da capital Assunção. Apesar do entusiasmo do presidente, porém, a insatisfação com seu governo é crescente entre população e partidos políticos. Há um ano, a expectativa dos paraguaios era a de que o ex-bispo - um novato na política - havia desembarcado no poder para fazer milagres. O primeiro que protagonizou foi o de infligir uma inédita derrota ao Partido Colorado, que havia estado 61 anos ininterruptos no poder. Foi o primeiro e último milagre. Doze meses depois, Lugo está sendo criticado por não reduzir o nível de pobreza e não investigar profundamente casos de corrupção de governos anteriores. Semana passada, grupos de esquerda que apoiaram sua campanha se manifestaram contra a lentidão na reforma agrária. Nem sequer aquilo que o presidente considera sua maior conquista - a negociação com o Brasil que elevou as tarifas de Itaipu - foi encarada como triunfo por aliados e oposição, que criticam Lugo por ter pressionado pouco o governo brasileiro.O analista político Alfredo Boccia Paz disse ao Estado que a esquerda, decepcionada com Lugo, exige a radicalização na reforma agrária. "A marca do governo Lugo foi a de fazer poucas mudanças. A guinada à esquerda não ocorreu. Ao mesmo tempo, a direita tampouco confia nele", disse.Uma pesquisa do Instituto de Comunicação e Arte (ICA) indicou que 34,4% dos paraguaios têm certeza que o presidente Lugo não completará seu mandato de cinco anos. Outros 21% acham que "talvez" ele chegue ao final de sua presidência. Somente 39,8% afirmam que possuem "certeza" que Lugo cumprirá os cinco anos. A principal base da coalizão de governo é o conservador Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), liderado pelo vice de Lugo, Federico Franco. No entanto, o PLRA - que conseguiu 75% dos votos de Lugo - afirma que não obteve espaços dentro do governo. Em diversas ocasiões o partido ameaçou rachar a coalizão. A tensão é agravada pelo vice Franco, que costuma repetir, que, caso Lugo se ausente da presidência, está "preparado para assumir o governo"."Lugo e o PLRA são como aquele casal que começaram o divórcio, mas ainda vivem dentro da mesma casa", disse o analista político e ex-deputado colorado Bernardino Cano Radil.O primeiro ano de Lugo também foi marcado por escândalos envolvendo amantes e filhos não reconhecidos do ex-bispo. Segundo analistas, contudo, eles fizeram mais barulho no exterior do que no Paraguai. "Os paraguaios não se importaram muito com o caso. Somos católicos, mas temos uma moral dupla", afirmou Boccia Paz.

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