Vasily Fedosenko/Reuters
Vasily Fedosenko/Reuters

Lukashenko diz ter 'sobrevivido' ao coronavírus sem apresentar sintomas

Frustração popular sobre como o presidente da Bielo-Rússia tem lidado com a pandemia alimentou os maiores protestos em anos contra seu governo, antes das eleições presidenciais de 9 de agosto

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2020 | 17h36

MINSK - O presidente da Bielo-Rússia, Alexander Lukashenko, disse nesta terça-feira, 28, ter contraído o coronavírus e se recuperado sozinho, sem apresentar nenhum sintoma, usando um tom desafiador ao discursar para líderes militares em Minsk.

Lukashenko, de 65 anos, resistiu aos pedidos para impor medidas rígidas de bloqueio para conter a pandemia, afastando os temores sobre a covid-19considerados por uma "psicose", e sugerindo remédios e tratamentos nada convencionais como ingerir vodka, frequentar saunas e jogar hóquei no gelo.

A frustração popular sobre como ele tem lidado com a pandemia alimentou os maiores protestos em anos contra seu governo, antes das eleições presidenciais de 9 de agosto. Ele prendeu dois de seus principais rivais políticos na repressão cada vez maior aos dissidentes.

"Hoje vocês estão vendo um homem que conseguiu sobreviver ao coronavírus. Isso foi o que os médicos concluíram ontem. Assintomático", disse Lukashenko. "Como eu disse, 97% da nossa população carrega essa infecção de forma assintomática", acrescentou. Ele não mencionou a fonte desse dado. 

A Bielo-Rússia, com uma população de 9,5 milhões, registrou 67.366 infecções por coronavírus, com 543 mortes.

Lukashenko não disse quando ou como ele poderia ter contraído o vírus. Ele se encontrou com o presidente russo, Vladimir Putin, em um desfile militar em Moscou no mês passado. Em declaração à agência de notícias Tass, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, informou que Putin está bem. 

Lukashenko, um ex-chefe de uma fazenda coletiva soviética, disse em abril que ninguém morreria por causa do coronavírus na Bielo-Rússia e qualquer morte seria resultado de condições subjacentes, como doenças cardíacas ou diabetes. 

Em forte contraste com outros países europeus, a Bielo-Rússia manteve suas fronteiras abertas e até permitiu que partidas de futebol da liga nacional fossem disputadas diante de espectadores.

Essa atitude aumentou o descontentamento contra o presidente, cujo governo de punhos de ferro desde 1994 lhe valeu o apelido de "o último ditador da Europa" por Washington.

Nesta terça-feira, Lukashenko estava falando para militares em uma base, depois de supervisionar exercícios de policiais especiais que dispararam gás lacrimogêneo e usaram um canhão de água em uma repressão aos protestos nas ruas. Lukashenko pediu que a polícia fosse dura.

"Sob nenhuma circunstância você deve criar provocações", ele instruiu o chefe da polícia. "Mas você também não deve permitir que (os manifestantes) insultem os policiais."

Lukashenko fez várias visitas a unidades militares e o Exército realizou exercícios com tanques no último fim de semana nas ruas de Minsk. O analista político Alexander Klaskovsky disse que a campanha eleitoral de Lukashenko está ocorrendo em uma atmosfera de "repressão e intimidação". 

"As autoridades esperam que a exibição de músculos e ameaças impeça as pessoas de sair para as ruas", disse ele. 

Grupos de direitos humanos dizem que mais de 1.100 pessoas foram detidas nas últimas semanas. Os manifestantes se uniram sob a liderança de Svetlana Tikhanouskaya, mulher de um dos candidatos presos, que está fazendo campanha no lugar do marido. 

Na terça-feira, vários jornalistas foram presos brevemente fora da sede do serviço de segurança do estado (KGB), levados a uma delegacia de polícia local e libertados.

Lukashenko comparou a oposição a quadrilhas criminosas e acusa os manifestantes de quererem iniciar uma revolução violenta com a ajuda de apoiadores estrangeiros./ REUTERS 

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