Lula cede e aumenta tom contra EUA no último dia de cúpula

Depois de tentar por dois dias contornar o discurso antiamericano que dominou a Cúpula da América Latina e do Caribe (CALC), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acabou embarcando na posição adotada por seus colegas e aumentou o tom contra os EUA. Lula defendeu que os latino-americanos não podem ser subservientes aos EUA e devem "exigir" do presidente eleito dos EUA, Barack Obama, uma definição de sua agenda para a região logo após sua posse. "Os países da América Latina e do Caribe não podem ser subservientes em relação aos EUA. É preciso ter boas relações com os EUA, mas a subserviência não ajuda ninguém a crescer", disse. Lula comemorou o resultado desses dois dias de reunião, na Costa do Sauípe, na Bahia, citando o ingresso de Cuba ao Grupo do Rio, que, agora, passa a ter 19 integrantes. "Mesmo que nenhum resultado tivesse sido alcançado nas quatro reuniões de cúpula da América Latina e do Caribe - que se realizaram na Costa do Sauípe - valeu a pena esse encontro pelo ingresso de Cuba no Grupo do Rio", afirmou o presidente brasileiro. "Não há justificativa política, nem psicológica para que o embargo (americano à ilha) seja mantido", completou Lula, defendendo também a recomposição das relações políticas dos EUA com a Venezuela. O presidente brasileiro preferiu não endossar o discurso radical de seu colega boliviano Evo Morales, que propôs na reunião da manhã de ontem que, caso Obama não suspenda o embargo logo após assumir o cargo, todos os países chamem de volta seus embaixadores dos EUA, como "um ato de rebeldia". "Eu sou mais cuidadoso", ponderou Lula, explicando que é preciso esperar para ver qual será a posição de Obama em relação à América Latina e o tratamento dado a Cuba. Na avaliação de Lula, as relações com os EUA e com a União Européia precisam ter "o máximo de independência possível". "Os países da região não devem deixar de fazer negócios com essas potências desde que eles sejam feitos em condições legítimas, justas e adequadas", disse o presidente. "Mas os EUA tampouco podem olhar a América Latina como um grupo de países esquerdistas que recebem ordens de Cuba." Lula disse ainda que a região não pode esperar que "um belo dia seja chamada para uma conversa com Obama". O presidente lembrou que, quando o Brasil mobilizou países para a criação do G-20, numa reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC) no México, em 2003, vários governantes sofreram pressão para não comparecer ao encontro seguinte. "Sinto que essa consciência está mudando", comentou Lula. INTERVENÇÃO DO ESTADOLula afirmou ontem no encerramento da CALC que, para enfrentar a crise financeira internacional, os países da região devem reforçar a intervenção do Estado na economia. Lula também recomendou que as economias regionais evitem optar pelo ajuste fiscal. "O Estado, que não valia nada, passou a ser o salvador da pátria", afirmou Lula, referindo-se às medidas adotadas pelos países desenvolvidos e por nações latino-americanas, que vêm investindo dinheiro do governo em bancos privados e no setor produtivo.Segundo o presidente, o Estado deve ter um papel cada vez mais relevante, neste momento de crise, em investimentos em infra-estrutura, no setor habitacional e em todos os que criam empregos. A crise financeira internacional dá uma oportunidade, na avaliação de Lula, para o mundo definir o modelo econômico que pretende adotar. Em uma crítica a países da Europa e aos EUA, o presidente brasileiro afirmou que os recursos que eles injetaram na economia "não chegaram à ponta" porque não foram destinados à produção, e sim "para salvar o sistema financeiro da quebradeira". Lula também cobrou do FMI, do Banco Mundial a apresentação periódica de uma "prestação de contas" de até onde e até quando vai durar a crise financeira.

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