Lula cobra de EUA ação sobre reforma

Presidente diz esperar que Obama leve adiante apoio à Índia e consiga obter a abertura do Conselho de Segurança para mais países

Tânia Monteiro ENVIADA ESPECIAL / MAPUTO, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2010 | 00h00

Surpreendido pela declaração de Barack Obama, que deu apoio à entrada da Índia como membro permanente de um Conselho de Segurança da ONU reformado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem à noite, ao desembarcar em Maputo, capital de Moçambique, que espera que "Obama faça agora desse compromisso dele com a Índia uma profissão de fé e consiga efetivamente abrir o Conselho a outros países".

Lula ainda não havia sido informado pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, das declarações de Obama.

Para Lula, a decisão de os EUA apoiarem a Índia não invalida a pretensão brasileira de conseguir seu assento permanente. O importante, disse, é que haja uma reforma no organismo.

"Os EUA são apenas uma voz dentro do Conselho de cinco", acrescentou, lembrando que há outros países que apoiam o Brasil, como França, Grã-Bretanha e China.

"É importante que a gente tenha uma ONU fortalecida, uma ONU mais representativa, uma ONU que fale um pouco a política do século 21. E eu acho que vai haver um processo de amadurecimento. Nessa crise econômica de 2008, ficou muito claro a fragilidade dos instrumentos multilaterais para tomar decisão e fazer com que os países cumpram. Então, acho que ficou mais clara também a necessidade do fortalecimento da governança local, e obviamente a ONU é o mais importante organismo multilateral que nós temos no mundo."

Lula lembrou ainda que o Brasil também a defende a participação da Índia no Conselho, já que ela integra o G-4, juntamente com o Brasil, a Alemanha e o Japão, que reivindica a reforma das Nações Unidas.

Itamaraty. A declaração de Obama foi bem recebido pelo Itamaraty, em Brasília. Para o governo brasileiro, há dois aspectos positivos nela: a volta do debate sobre reforma da ONU e o apoio a um aliado brasileiro que busca tornar o órgão máximo da instituição mais inclusivo.

Ao afirmar estar ansioso por "um Conselho de Segurança reformado, que inclua a Índia como um membro permanente", Obama estaria indicando que os EUA aceitam uma discussão sobre a mudança no Conselho. Para o Itamaraty, o apoio à Índia é, sobretudo, um aval à reforma.

Alé do G-4, a Índia integra os grupos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) e Ibas (Índia, Brasil e África do Sul).

Brasília e Nova Délhi também se alinharam em busca de uma nova ordem econômica, tanto no âmbito das rodadas da OMC quanto no do G-20.

O Conselho de Segurança da ONU tem cinco membros permanentes com poder de voto e de veto - EUA, Grã-Bretanha, França, China e Rússia -, além de dez membros rotativos com direito a voto, mas sem direito de veto. O Brasil ocupará até 2011 um desses postos não permanentes.

Desde a fundação da ONU, em 1945, o Brasil tem aspirações em relação ao Conselho da instituição. Mas as discussões sobre a reforma ganharam força há 18 anos, desde que o então secretário-geral da ONU, Boutros Boutros-Ghali, propôs a Agenda pela Paz, que contemplava a ideia de uma ampliação do Conselho.

O Brasil, assim como outras nações, defende a sua ampliação para que o órgão possa ter maior representatividade e não fique parado no cenário geopolítico do fim da Segunda Guerra Mundial. / COLABORARAM DENISE CHRISPIM MARIN E RENATO ANDRADE

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