Lula dá adeus a ''companheiro'' em viagem rápida a Buenos Aires

Relação do ex-presidente argentino com o governo brasileiro foi alternada por amizade e série de disputas comerciais

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2010 | 00h00

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou ontem à noite a Buenos Aires para despedir-se do ex-líder argentino Néstor Kirchner, que morreu na quarta-feira, e apresentar suas condolências à presidente Cristina Kirchner.

Lula, que decretou luto oficial de três dias no Brasil pela morte de Kirchner, deixou o Aeroporto Aeroparque de Buenos Aires, acompanhado do assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia, e do senador Aloizio Mercadante, sem dar entrevistas. Segundo os assessores, ele voltaria ontem mesmo para São Paulo.

Lula foi o oitavo presidente a chegar à Argentina para participar do velório, que está ocorrendo na Casa Rosada. Antes de viajar, Lula declarou em um ato no aeroporto do Rio de Janeiro que Kirchner foi um "companheiro" pelo qual sentia um "profundo respeito", por ter "conseguido tirar a Argentina do buraco".

Relações bilaterais. Kirchner teve com o Brasil uma forma peculiar de relacionamento. Seu estilo era o de bater primeiro, por meio de decisões comerciais adotadas de forma unilateral, para depois sentar-se à mesa e discutir com o governo Lula.

Durante a campanha eleitoral de 2003, Kirchner foi a Brasília reunir-se com Lula, que respaldou sua candidatura contra o ex-presidente Carlos Menem. Mas o namoro ficou de lado quando, meses depois, Kirchner se irritou com a falta de apoio de Lula nas duras negociações da Argentina com o FMI.

Em 2004, Kirchner decidiu que havia chegado a hora de "endurecer" sua posição na relação com seu principal parceiro comercial. Enquanto estava no avião que o levava para a cúpula do Mercosul na cidade de Puerto Iguazú, disse às agências internacionais que aplicaria medidas de restrição à entrada de eletrodomésticos "made in Brazil". Segundo ele, estava ocorrendo uma invasão de produtos brasileiros, que estavam afetando a indústria nacional. Desta forma, começou a chamada "guerra das geladeiras", que levou a amplas restrições ao comércio de fogões, geladeiras, lavadoras e TVs.

As medidas protecionistas, na era Kirchner, foram alternadas com declarações de fraternidade e de proximidade com o governo Lula e o Brasil. Mas isso não impediu que Kirchner demonstrasse ocasionais irritações ausentando-se de cúpulas nas quais o Brasil tinha interesses.

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