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Lula deixa almoço e evita encontro com presidente sudanês

Cúpula entre países árabes e sul-americanos expõe divisão regional em relação a Bashir, indiciado pelo TPI

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

31 de março de 2009 | 20h49

A cúpula entre países árabes e sul-americanos se transformou em uma série de constrangimentos para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que deixou o evento num país árabe sem se pronunciar se apoia ou não o indiciamento do presidente do Sudão, Omar Al Bashir, por crimes de guerra. Lula abandonou um almoço oficial com mais de 30 líderes ao ver que havia sido colocado ao lado de Al Bashir. Nesta terça-feira, 31, no Catar, Lula foi um dos promotores da cúpula. Mas o evento acabou marcado pela divisão entre os países sul-americanos em relação ao presidente sudanês indiciado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI).

 

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A cúpula ainda teve outro momento de constrangimento: assim que Lula iniciou seu discurso, o presidente da Líbia, Muamar Kadafi, se levantou, abandonou a sala e deixou Doha, sem dar explicações. Se Lula evitou tomar uma posição pública e até mesmo de estar ao lado de Al Bashir, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, convidou Al Bashir para visitar Caracas. Para ele, Shimon Peres, de Israel, e o ex-presidente americano George W. Bush deveriam ser presos por "genocídio."

 

Chávez alegou que a soberania dos países e a imunidade dos presidentes não poderia ser violada, recomendando o Brasil a também condenar o tribunal. "O Brasil deveria se sentir atropelado, como a Venezuela e Terceiro Mundo por essa decisão", disse. Os países árabes haviam adotado na segunda-feira uma resolução rejeitando o mandado de prisão contra Al Bashir.

 

A ONU estima que os conflitos em Darfur já mataram 300 mil pessoas. Para os árabes, o próximo passo seria o de tentar convencer os sul-americanos a também apoiar uma ideia similar. Mas Al Bashir sequer chegou a fazer o pedido de apoio ontem e se limitou a dizer que "tem imunidade". A lei entre os sul-americanos era de evitar o tema. Mas o Palácio do Planalto foi surpreendido.

 

Lula, ao chegar para o almoço oficial entre os presidentes da cúpula, se deu conta que estava sentado ao lado de Al Bashir. O sudanês estava atrasado. Mas Lula não perdeu tempo. Comeu apenas a entrada e, ao ver a chegada do presidente do Sudão, se levantou, cumprimentou o líder indiciado e alegou que precisava sair para atender a uma ligação. Não voltou mais.

 

O Itamaraty garantiu que Lula não trocou uma palavra sequer com o líder sudanês. Oficialmente, o Palácio alega que Lula queria descansar para poder enfrentar as reuniões da parte da tarde. A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, também deixou o almoço, mas já perto de seu final. A Argentina está julgando ex-generais que cometeram crimes durante a Ditadura. Jorge Taiana, chanceler argentino, explicou que o país "respeitava o sistema internacional", insinuando um apoio ao TPI. Mas Lula também evitou falar com a imprensa e ter de responder a perguntas sobre Al Bashir.

 

REPÚDIO CHILENO

 

O Itamaraty apenas avisou que o presidente havia deixado o centro de conferências depois da partida de seu comboio ao aeroporto. O Brasil ratificou o TPI, mas até hoje não se pronunciou sobre Al Bashir. O chanceler Celso Amorim afirmou que o tema do sudanês não estava na agenda. E confessou que esperava que não entrasse. Michelle Bachelet, presidente do Chile e que teve seu pai morto pela Ditadura, foi explícita em sua posição e deixou claro que não compartilhava da posição de Chávez ou dos árabes.

 

"O Chile foi um dos países que impulsionaram o TPI. Pela nossa própria experiência, há momentos que a soberania de um país não basta. Há valores que são universais, que são o dos direitos humanos", disse Bachelet, que também foi presa pelo regime de Augusto Pinochet. Francisco Santos, vice-presidente da Colômbia, confessou ao Estado que não aceitaria entrar na foto oficial do evento se Al Bashir estivesse nela. Sem explicações, o sudanês não apareceu para a sessão de fotos.

 

O encontro terminou com uma declaração que apenas pede que o processo de paz em Darfur seja mantido e fortalecido. O TPI sequer é mencionado diante da oposição de alguns governos sul-americanos. Mas Chávez fez questão de defender o sudanês, comparando seu sofrimento a dos palestinos. "Dou meu apoio pleno a Al Bashir. Bush é o verdadeiro genocida, que invadiu o Iraque e matou crianças. Por isso que digo que o TPI é um resquício do imperialismo. Se Al Bashir cometeu um crime, seria sua justiça que deveria julgá-lo. Não pode haver um poder supranacional. Presidentes tem imunidade", disse.

 

A regra era não falar sobre o assunto. Os chanceler do Equador e Paraguai se recusaram a falar do assunto ao serem perguntados pela imprensa. Além da companhia de Al Bashir, Lula ainda perdeu um almoço com carneiro, regado á feijão francês. Já o boliviano Evo Morales também acusou os israelenses de genocídio e usou o evento para defender folha de coca. "Isso não é cocaína", completou.

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