Lula dribla retórica de Correa

Após audiência, presidente brasileiro evita aparecer ao lado do equatoriano, que faz fortes críticas a Uribe

Tânia Monteiro e João Domingos, O Estadao de S.Paulo

06 de março de 2008 | 00h00

O governo brasileiro jogou ontem uma verdadeira partida de xadrez diplomático na audiência concedida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a seu colega do Equador, Rafael Correa, minutos antes do fechamento de um acordo na Organização dos Estados Americanos (OEA) entre os governos equatoriano e colombiano. Lula rejeitou comparecer ao lado de Correa, ao final da audiência, para não se comprometer com a retórica agressiva do líder equatoriano contra o presidente colombiano, Álvaro Uribe. A tarefa de ficar ao lado de Correa, enquanto o presidente equatoriano falava no Planalto, ficou a cargo do chanceler Celso Amorim, que também não quis se pronunciar enquanto o embaixador brasileiro na OEA, Osmar Chohfi, não confirmava o acordo entre Equador e Colômbia. Quando Correa cobrou "alguém do governo" a seu lado, ao deixar o gabinete presidencial, Lula ordenou a Amorim: "Desce lá."O chanceler brasileiro só foi dar entrevista no Itamaraty quando o equatoriano já havia deixado a Praça dos Três Poderes. A meta diplomática era tratar bem Correa, mas evitar um movimento que comprometesse o acordo negociado na OEA.Selado o acordo, o presidente e Amorim deram-se por vitoriosos por terem mantido a situação sob controle. Lula ligou no final da tarde para a presidente do Chile, Michelle Bachelet, agradeceu a parceria diplomática na condução da crise e estabeleceu três metas: garantir a efetivação do acordo, trabalhar para que Equador e Colômbia restabeleçam as relações diplomáticas e criar o ambiente propício à retomada das negociações para libertar os reféns em poder dos guerrilheiros das Farc. O assessor especial de Lula, ministro Marco Aurélio Garcia, manteve ontem mesmo contatos com assessores do presidente francês, Nicolas Sarkozy, para começar a organizar a retomada das negociações em favor dos reféns.Durante a audiência, Rafael Correa entregou a Lula um DVD com imagens do ataque das tropas colombianas às Farc, em território equatoriano. Anteontem à noite, quando desembarcou em Brasília, o presidente havia chamado Uribe de "canalha" e "psicopata". No Planalto, ontem, ele manteve a retórica inflamada e recusou a mediação de Lula para um encontro com o presidente colombiano.Amorim havia telefonado, logo cedo, para o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, indicando que seria muito importante para a organização que houvesse ontem mesmo uma solução para a crise. "Uma conclusão em curto prazo é muito positiva e garante a credibilidade da OEA", disse Amorim, pouco antes de embarcar para a reunião do Grupo do Rio, que começa hoje em Santo Domingo, na República Dominicana. "O tempo cuida das feridas. Mas, em curto prazo, a situação é grave. E, se a situação é grave, ela debilita nossa situação diante do mundo, nos torna fracos para as grandes negociações. O enfraquecimento da América Latina, justamente no ponto em que é mais forte, nos prejudica muito", disse o chanceler.Depois do encontro com Lula, Amorim ouviu Correa dizer que Uribe não respeita ninguém, tornando-se uma ameaça também para o Brasil. Menos de meia hora depois da fala de Correa, já no Itamaraty, Amorim atenuou o efeito das declarações do líder equatoriano. Acrescentou que Uribe não é ameaça. "O Brasil não se sente ameaçado por ninguém. Sente-se ameaçado se houver conflito, que ameaça a paz, a integração, o crescimento econômico de todos os países sul-americanos." Amorim informou que, assim como recebeu Correa, Lula fará o mesmo com Uribe. "Queremos a paz. Não há ainda uma data, mas ele mostrou interesse em conversar com o presidente Lula", disse.

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