Lula envia a Obama sugestões para lidar com crise

Brasil propõe uma ampla reforma econômica que coloque as finanças a serviço da economia real

João Domingos, O Estadao de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 00h00

Aproveitando a transição nos EUA, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encaminhou ao presidente eleito Barack Obama um documento dizendo que, ao contrário de impor uma regulamentação mais dura ao sistema financeiro, é preciso fazer uma reforma que coloque as finanças a serviço da produção. Lula reuniu-se na terça-feira com o ministro de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, e o autorizou a escrever um documento intitulado Usando a Crise para Reorganizar os Mercados e a enviá-lo para a equipe econômica de Obama. A tese, de oito páginas, chegou aos EUA na quarta-feira.O documento diz que o Brasil pretende participar mais do debate internacional e sugerir a outras nações soluções para os problemas econômicos causados "pela desproporcional correlação de forças entre o sistema financeiro e a economia real". Assim, Lula deve aproveitar todos os encontros que tiver daqui para frente com chefes de Estado para insistir na tese de que é preciso reorganizar o sistema financeiro mundial, adequando-o à produção. PROPOSTASPara Mangabeira, a economia brasileira desenvolveu-se em resposta a crises internacionais, mas nunca se aproveitou das oportunidades criadas por conflitos, como ocorreu com a economia americana durante a 2ª Guerra. "Temos o que apresentar nesse momento de economia de guerra sem guerra", disse o ministro.Mangabeira faz o seguinte diagnóstico sobre o ambiente político atual. "Nós (Brasil) contamos com imensa simpatia no mundo. Ninguém é contra nós. Não carregamos o ônus de regimes autoritários, como os que dominam a China e a Rússia. Então, temos condições singulares para desempenhar o papel de protagonistas na crise. Mas não basta querer. É preciso ter idéias. É o momento de um grande esforço de formulação."Segundo o ministro, estudos têm demonstrado que empresas organizadas utilizam pelo menos 80% de capital próprio, proveniente dos lucros, para autofinanciar-se. "Se a produção é, em grande medida, autofinanciada, qual é a finalidade de todo o dinheiro em bancos e bolsas de valores?", pergunta ele.De acordo com Mangabeira, a resposta está na tentativa de usar esses recursos para mobilizar a poupança acumulada da sociedade para dar apoio a novas iniciativas e financiar o consumo daqueles que não têm dinheiro para comprar o que querem consumir.CRISEO problema, segundo Mangabeira, é que apenas uma pequena parte do capital participa do financiamento da atividade produtiva da economia real. Com isso, a parte que sobra deixa de servir a uma especulação de mercado para voltar-se à especulação pela mera especulação. No estudo, Mangabeira afirma que o Brasil tem por objetivo fazer uma provocação ao novo governo e ao mundo, para que todos pensem numa forma de reorganizar os mercados. "A crise deve servir como um convite para a reforma das disposições que regem a relação entre o financiamento e a economia real. O objetivo da reforma deverá ser o de reforçar os laços entre a poupança e a produção", disse.Por fim, Mangabeira diz que é preciso entender que um debate desse nível não é um projeto de lei que pode ser ou não aprovado. "Com os americanos, podemos construir uma resposta à crise."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.