Lula inspira campanha presidencial argentina

A 44 dias das eleições presidenciais na Argentina, no dia 27 de abril, as medidas adotadas pelo presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, começam a integrar a plataforma de campanha dos candidatos argentinos. Enquanto o ex-presidente Carlos Menem cita a convocação das Forças Armadas, durante o carnaval carioca, para justificar um desejo antigo de incluir os soldados no combate ao crime, as deputadas e também presidenciáveis Elisa Carrió e Patrícia Walsh apontam, por exemplo, o programa Fome Zero. À exceção de Menem, que tantas vezes bateu publicamente de frente com Lula, os candidatos não querem limitar-se mais a vincular sua imagem ideológica ao presidente brasileiro. Agora, tentando ser mais pragmáticos, e quando começam a explicar suas medidas, eles prometem repetir o que Lula já adotou no Brasil para tentar seduzir aqui o eleitor argentino. Esta corrida eleitoral, que ocorre seis meses antes do prazo constitucional, é a primeira na história argentina que deverá contar com segundo turno. O pleito também marca a estréia da chegada de três candidatos peronistas (PJ, Partido Justicialista, peronistas) e ainda uma UCR (União Cívica Radical, partido mais antigo do país) enfraquecida pela queda do ex-presidente Fernando de la Rúa, em dezembro de 2001. A outra novidade é o aparecimento de novos partidos e candidatos num país que foi marcado pelo bipartidarismo entre o PJ e a UCR. Entre os novos nomes que surgem agora estão o ex-ministro da Economia e da Defesa Ricardo Lopez Murphy, do Movimento Recrear, e a deputada Elisa Carrió, do ARI (Alternativa para uma República de Iguais). Os dois ex-integrantes da UCR, cujos seguidores deste partido são chamados de "radicais". Porém, enquanto Lopez Murphy é definido como de centro-direita, Carrió é apontada como de esquerda, mas apresenta um discurso que ainda não se sabe o que realmente pretende e qual é seu público alvo. Os principais candidatos à sucessão do presidente Eduardo Duhalde na Casa Rosada são: os peronistas Menem, do Movimento pela Lealdade; Nestor Kirchner, candidato de Duhalde e da Frente para a Vitória Peronista; Adolfo Rodrigues Saá, Movimento Nacional e Popular; Lopez Murphy; Carrió; e Leopoldo Moreau. Até aqui, Patrícia Walsh, da Esquerda Unida, que defende desde novo calote da dívida até à expulsão dos investidores estrangeiros, praticamente não aparece nas pesquisas de intenções de voto. Entre os candidatos, cada um já teve seu dia de ser o primeiro nestes levantamentos de opinião. Desta vez, volta a ser Menem. Por quê se tem o maior índice de rejeição?, pergunta-se ao analista Vicente Massoti, cotado para ministro num eventual governo menemista. "Muita gente vai votar nele tapando o nariz. Mas faz isto porque quer ter uma vida estável de volta", justifica. "Além disso, ao mesmo tempo em que Menem aparece nas pesquisas de opinião com 12% ou 13%, mais ou menos como todos os outros candidatos, ele surge como o vencedor quando a pergunta é quem será o próximo presidente". Para o economista Júlio Piekarz, assessor de Lopez Murphy, o ex-ministro de De la Rúa e economista respeitado pelos mercados financeiros, poderá ter uma votação "surpreendente". Pragmático e ainda aprendendo a ter jogo de cintura política, Lopez Murphy vem mesmo sendo apontado como um candidato surpresa, na opinião de diferentes analistas políticos. Hoje, porém, se houvesse segundo turno seria entre dois peronistas, Menem e Kirchner, que agrada a classe média, setor da sociedade que repudia a imagem do ex-presidente. "A única certeza que temos hoje é a de que Menem chegará ao segundo turno. Não sabemos ainda se vencerá ou não e também não está claro qual será o outro candidato", explicou o cientista político Rosendo Fraga."Menem tem o maior índice de rejeição e Kirchner o menor índice nesta categoria. Pelas nossas pesquisas, hoje os dois iriam para o segundo turno", confirma Enrique Zuleta Puceiro, do Ibope argentino. No entanto, como reconhecem Vicente Massoti, Júlio Piekarz e ainda Enrique Rodrigues, principal assessor político de Rodrigues Saá, as intenções de voto ainda estão numa fase "mutante". Quer dizer, ninguém é capaz de arriscar com convição quem será o sucessor de Duhalde.

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