''Lula parece temer o mundo árabe''

Para o ministro israelense de Indústria, Comércio e Trabalho, Binyamin Ben-Eliezer, a aproximação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu colega iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, mostraria que o líder brasileiro não entende a importância do Oriente Médio "para a estabilidade do mundo". "Lula parece ter medo do mundo árabe", diz o israelense. A seguir, trechos da entrevista.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2010 | 00h00

Qual é a chance de um acordo de paz com os palestinos?

Em um futuro muito próximo, estabeleceremos um pacto com os palestinos, gostemos ou não. Todo o Oriente Médio será transformado e esperamos uma nova ordem na região. Ela será consequência de um Irã nuclear, uma ameaça não só para Israel, mas também para o mundo sunita. Infelizmente, perdemos o apoio da Turquia. Três semanas atrás estive com o rei Abdullah, da Jordânia, e dois meses antes me reuni com o presidente do Egito, Hosni Mubarak. Posso lhe dizer que eles estão preocupados com o Irã.

Há ainda uma perda de confiança nos EUA. O mundo árabe não pode viver sem um guarda-chuva de uma superpotência. Depois da 2.ª Guerra, eles procuraram os russos. Depois, passaram para os EUA.

E quem será o próximo "guarda-chuva"?

Eles podem procurar os chineses ou voltar para os russos. A Arábia Saudita não pode viver sem um guarda-chuva.

Como o sr. vê a aproximação entre o Brasil e o Irã?

Infelizmente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está apoiando Ahmadinejad. Você sabe que respeitamos muito Lula, mas não entendemos como ele pode fazer uma coisa dessas. Acho que ele tem medo do mundo árabe. Lula precisa compreender que a perda do controle e da estabilidade no mundo árabe fará com que todos saiam perdedores. Daquela região vem 73% do petróleo mundial. Isso não afeta o Brasil, mas é importante para a Europa e para os EUA. Portanto, nós, israelenses, precisamos nos apressar e começar logo a dialogar com os palestinos. Infelizmente, os líderes palestinos não são corajosos o bastante para tomar decisões e estão desperdiçando seu tempo com a questão do congelamento dos assentamentos.

E quanto à Turquia?

Éramos bons amigos. De alguma maneira, eles apareceram com uma declaração segundo a qual nossa amizade estava acabada. A verdadeira questão envolve dois elementos: primeiro, o fato de a Turquia ter ficado desapontada por não ter sido aceita na União Europeia; segundo, o advento da nova filosofia do regime turco, que sonha com a reconstrução do Império Otomano. Do Brasil até a China. Não estou brincando. Basta ler o livro do ministro turco das Relações Exteriores (Ahmet Davutoglu) e então o público entenderá essa nova filosofia.

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