Lula propõe na ONU comitê mundial de combate à fome

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva propôs hoje, em seu discurso na 58ª Assembléia Geral das Nações Unidas, um comitê mundial de combate à fome gerenciado pela própria ONU. Ele disse esperar a contribuição dos países ricos e em desenvolvimento. No discurso, que durou pouco mais de 20 minutos e foi encerrado às 11h56, ele reiterou o apelo que fez durante os fóruns de Davos e de Porto Alegre e também à cúpula ampliada do G-8, em Evian. "Precisamos nos engajar política e materialmente na única guerra da qual sairemos todos vencedores: a guerra contra a fome e a miséria. Erradicar a fome do mundo é um imperativo moral e político", afirmou ele, ressaltando que essa tarefa é factível se houver vontade política de realizá-la. Durante seu discurso, o presidente citou alguns números sobre a questão da fome e da miséria no mundo. Segundo ele, a fome atinge hoje cerca de 1/4 da população mundial, incluindo 300 milhões de crianças. Além disso, diariamente 24 mil pessoas são vitimadas por doenças da desnutrição. "A cada dia a inteligência humana amplia o horizonte do possível, realizado prodigiosas invenções e, no entanto, a fome continua e, o que é mais grave, se alastra em várias regiões do planeta", declarou o presidente. "A fome é uma emergência e como tal deve ser tratada", acrescentou. Lula disse que é preciso agir para acabar com a fome sob o risco de "imolar nossa credibilidade na omissão". Para o presidente, o verdadeiro caminho da paz é o combate sem tréguas à fome e à miséria, numa formidável campanha de solidariedade capaz de unir o planeta em vez de aprofundar as divisões e o ódio que conflagram os povos e semeiam o terror. "Apesar do fracasso dos modelos que privilegiam a geração de riqueza sem reduzir a miséria, a miopia e o egoísmo de muitos ainda persistem", salientou Lula. Avanços significativos a partir de 1º de janeiro Ele declarou que desde 1º de janeiro o Brasil conseguiu avanços significativos na economia, recuperando a estabilidade e criando as condições para o novo ciclo de crescimento sustentável. Lula comentou que o governo brasileiro continuará a trabalhar com vigor para manter o equilíbrio das contas públicas e reduzir a vulnerabilidade externa. O presidente disse que não medirá esforços para aumentar as exportações, ampliar a capacidade de poupança, atrair investimentos e voltar a crescer. "Mas devemos ser capazes, ao mesmo tempo, de atender as necessidades de alimentação, emprego, educação e saúde de dezenas de milhões de brasileiros abaixo da linha da pobreza. Temos o compromisso de realizar uma grande reforma social no País", afirmou. Ele lembrou que a fome é o aspecto mais dramático e urgente de uma situação de desequilíbrio estrutural, cuja correção requer políticas integradas para a promoção da cidadania plena. Fome Zero O presidente destacou o projeto Fome Zero. Segundo o presidente, o programa conjuga medidas estruturais e emergenciais e já atende 4 milhões de pessoas no País. "Nossa meta é que até o final do meu governo nenhum brasileiro passe fome." Lula ressaltou, contudo, que é preciso dar um salto de qualidade no esforço mundial de luta contra a fome. "Propus, neste sentido, a criação de um Fundo Mundial de Combate à Fome e sugeri formas de viabilizá-lo. Existem outras propostas, algumas já incorporadas a programas das Nações Unidas. O que faltou até agora foi a imprescindível vontade política de todos nós, especialmente daqueles países que mais poderiam contribuir", declarou ele. Segundo Lula, "de nada servem os fundos se ninguém aporta recursos." O presidente disse que as Metas do Milênio, aprovadas pela ONU, são louváveis. "Mas, se continuarmos omissos, se o comportamento coletivo não mudar, tais metas permanecerão no papel e frustração será imensa". "É preciso mais do que nunca tranformar intenção em gesto", afirmou. Contra o protecionismo Como já fez várias vezes e antes dele fez seu antecessor, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou o protecionismo dos países desenvolvidos e disse ser favorável a uma liberalização do comércio internacional que permita aos países em desenvolvimento competirem em igualdade. "O protecionismo dos países ricos penaliza injustamente os produtores eficientes das nações em desenvolvimento. Além disso, é hoje o maior obstáculo para que o mundo possa ter uma nova época de progresso econômico e social", afirmou Lula, em seu discurso na Assembléia Geral da ONU. O presidente comentou que o Brasil e seus parceiros do G-22 sustentaram na reunião da OMC, em Cancún, que esta grave questão pode ser resolvida por meio de negociação pragmática e mutuamente respeitosa, que leve à efetiva abertura dos mercados. Livre comércio Lula reafirmou a disposição do Brasil de buscar caminhos convergentes que beneficiem a todos, levando em conta as necessidades dos países em desenvolvimento. "Somos favoráveis ao livre comércio desde que tenhamos oportunidades iguais de competir. A liberalização deve ocorrer sem que os países sejam privados de sua capacidade de definir políticas dos campos industrial, tecnológico, social e ambiental", afirmou o presidente. Lula disse que o Brasil está instaurando um novo modelo capaz de conjugar esstabilidade econômica e inclusão social. "As negociações comerciais não são um fim em si mesmo. Devem servir à promoção do desenvolvimento e à superação da pobreza. O comércio internacional deve ser um instrumento não só de criação, mas de distribuição de riqueza." 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