Lula usa bases para fortalecer Unasul

Reposta brasileira à crise provoca atritos com EUA e Colômbia

Denise Chrispim Marin e Tânia Monteiro, O Estadao de S.Paulo

08 de agosto de 2009 | 00h00

Luiz Inácio Lula da Silva quer manter a polêmica sobre a presença americana nas bases militares da Colômbia como instrumento de retórica para reforçar a importância política da União das Nações Sul-americanas (Unasul). O governo decidiu também, segundo um assessor de Lula, transformar o caso em exemplo da "intolerância" do Brasil para com o envio e permanência de forças estrangeiras na América do Sul. A exigência de "garantias" de que militares dos EUA não avançarão pelos territórios vizinhos da Colômbia é, de um lado, uma forma de protesto contra a a interferência de uma potência na área sobre a qual o Brasil tem pretensão hegemônica e, de outro, a expressão do temor de que a adoção de acordos desse tipo à revelia da Unasul acabem por banalizar o órgão recém-instituído. A posição do Brasil provocou uma rusga com os EUA, um potencial atrito com o governo de Álvaro Uribe e alinhou o País aos interesses do "eixo bolivariano". O Palácio do Planalto advertiu o general Jim Jones, assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, que a presença de militares americanos na Colômbia é um "resquício da Guerra Fria" e traz ameaças ao aprofundamento da relação Brasil-EUA. Anteontem, diante da imprensa, o Itamaraty pôs em dúvida todas as explicações trazidas pelo presidente Uribe, e pediu "garantias" de que os militares americanos não cruzarão as fronteiras da Colômbia. Um colaborador direto de Lula disse ao Estado que o Brasil não quer mais a repetição de surpresas, como a reativação da 4ª Frota da Marinha americana, que ocorreu no ano passado sem consulta prévia aos países do Caribe e do Atlântico Sul, e o exercício conjunto entre as Armadas da Venezuela e da Rússia, também em 2008. Para o Itamaraty, que havia aceitado as explicações enviadas por Caracas sobre os exercícios navais de Rússia e Venezuela, a anuência prévia da Unasul é imprescindível para ações militares que tragam forças estrangeiras à região. Caso contrário, alimentam a reciprocidade e a desestabilização da América do Sul. "Não podemos deixar que a presença estrangeira aumente na região. Qualquer ameaça provoca reação. O Brasil tratou o assunto de forma profissional ao cobrar os Estados Unidos e a Colômbia", defendeu o assessor de Lula. ÁREA MILITAR Esse consenso, entretanto, não alcança a área militar. Generais do alto comando das Forças Armadas ouvidos pelo Estado concordam que a presença de militares americanos na América do Sul pode estimular conflitos indesejáveis entre países vizinhos e a atual polêmica teria sido evitada se Washington e Bogotá tivessem informado exaustivamente os países sul-americanos. No entanto, eles acreditam que a reação do Brasil e dos países bolivarianos assumiu um tom "histérico" porque nas bases não há nenhuma "ameaça militar". Eles argumentam que se os Estados Unidos quiserem invadir qualquer território soberano o fariam sem criar pretextos nem escaramuças, como evidenciaram no passado recente. Em relação à América do Sul, a preocupação maior desses oficiais está nos discursos e nas atitudes beligerantes de Hugo Chávez, presidente da Venezuela, e no fato de o governo Lula ter adotado dois pesos e duas medidas para lidar com o atual impasse. "O governo coloca a faca no pescoço de Uribe, no caso das bases, e não cobra de Chávez e de Rafael Correa (presidente equatoriano) explicações sobre a cooperação de seus governos com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc)", afirmou um general.

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