Ismail Zitouny/Reuters
Ismail Zitouny/Reuters

Luta política deve se acirrar após revolução líbia

Conforme a guerra dá lugar à política, ex-membros do regime de Kadafi, exilados e rebeldes da primeira hora disputam espaço na nova ordem

Lourival Sant?Anna, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL

TRÍPOLI

Ao longo de 42 anos, Muamar Kadafi sistematicamente destruiu ou impediu que surgisse qualquer instituição, grupo ou indivíduo que de alguma maneira pudesse se projetar fora de sua sombra. Não havia espaço para políticos de oposição. Empresários, artistas e atletas não podiam ter seu nome citado nos meios de comunicação. Eram identificados pela função que exerciam.

Por isso só existem hoje duas categorias de líderes oposicionistas conhecidos nacionalmente: os que pertenciam ao regime de Kadafi e debandaram para a rebelião e os exilados que pelos canais árabes captados pelas antenas parabólicas entravam nos lares líbios. A guerra civil produziu comandantes e heróis da luta armada, mas eles são conhecidos localmente, e o ambiente revolucionário tende a distribuir os méritos entre muitos, em vez de concentrá-los em indivíduos.

Essa configuração da política pós-Kadafi cria um mosaico extraordinariamente volátil.

Até aqui, a fragmentação e o seu potencial desestabilizador deram poucos sinais, pois os revolucionários têm estado ocupados em consolidar o controle sobre a Líbia, lutando por cidades importantes, como Sabha, a quarta maior do país, Sirte, terra natal de Kadafi, e Bani Walid, reduto da tribo warfallah, a mais numerosa da Líbia. Mas, nas conversas com as diferentes correntes, já se delineiam os grandes embates que virão quando a guerra der lugar à política.

O Conselho Nacional de Transição (CNT), que o Estado viu nascer em Benghazi em fevereiro, é um grupo de mais de 40 pessoas autodesignadas. Pelo contexto de seu surgimento, ele tem uma representação desproporcional de integrantes do leste do país, que primeiro caiu em mãos rebeldes.

As principais figuras do CNT tiveram até fevereiro cargos importantes no regime de Kadafi. O presidente, Mustafá Abdel Jalil, era ministro da Justiça; o primeiro-ministro, Mahmud Jibril, dirigia o Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico. Ter sido membro do governo de Kadafi é ao mesmo tempo seu maior trunfo e sua maior fragilidade: por um lado, sua experiência administrativa e técnica, num país que terá de ser reconstruído do zero, é valorizada; por outro, sua vinculação com a ditadura - odiada e acusada de crimes e desvios - é repudiada.

Outra categoria de integrantes do CNT são os que estavam no exílio, como o ministro das Finanças e do Petróleo, Ali Tarhouni. Exilado desde 1973 nos Estados Unidos, onde fez mestrado e doutorado em economia, ele é, desde 1985, professor de economia na Universidade de Washington.Suas credenciais anti-kadafistas e acadêmicas são inquestionáveis; mas Tarhouni e outros que chegaram do exílio são acusados de não conhecerem mais seu país e de não terem passado o sofrimento dos que ficaram.

Cientes da discutível legitimidade do CNT, seus membros garantiram repetidamente que se encarregariam apenas da liderança civil da revolução e da transição para uma democracia, e asseguraram que não se candidatariam nas eleições que eles próprios organizariam. Isso já eliminaria boa parte das lideranças oposicionistas hoje conhecidas. Mas é difícil prever até que ponto essa promessa será cumprida.

PERFIS

Mustafá Abdel Jalil, chefe do Conselho Nacional de Transição

De ministro a líder rebelde

Ministro da Justiça de Muamar Kadafi de 2007 a 2011, demitiu-se em 15 de fevereiro, primeiro dia dos protestos, e passou a apoiar a rebelião. Analistas dizem que Kadafi chamou o então juiz para o cargo porque precisava de alguém de boa reputação (e de um crítico a menos fora da administração). Mesmo no governo, condenou abusos contra direitos humanos e pediu publicamente a libertação de presos políticos. É muito respeitado e popular, mas muitos líbios o consideram conciliador e brando demais para presidir o país depois da transição.

Mahmud Jibril, premiê do Conselho Nacional de Transição

O interlocutor do Ocidente

Economista com doutorado nos EUA, Jibril dirigia o Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico no governo de Kadafi. Foi a mais destacada voz no exterior durante a revolução, à qual aderiu desde o começo. Telegrama de 2009 do embaixador americano Gene Cretz o descreveu como "interlocutor sério, que entende a perspectiva dos EUA". Mas é visto com suspeição pelas brigadas revolucionárias, por sua atitude conciliadora para com membros do regime que permaneceram leais a Kadafi, sobretudo os de sua tribo, warfallah.

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