Luta por direitos iguais fez a diferença

Nos EUA, negros conseguiram ascender lutando contra a discriminação oficial; no Brasil, o racismo é dissimulado

Carlos Marchi, O Estadao de S.Paulo

20 de janeiro de 2009 | 00h00

Muita gente se pergunta quando o Brasil terá um presidente negro. Essa pergunta bem poderia ser respondida com outra: quando os EUA elegerão um presidente operário? Dois grandes modelos de sociedades que importaram negros da África para servir como força de trabalho escrava, EUA e Brasil integraram os negros às suas sociedades de forma diversa. No Brasil, brancos e negros foram declarados iguais após a abolição da escravatura, mas até hoje as desigualdades marcam diferenças abissais. Nos EUA, os negros ascenderam, a despeito da segregação oficial, mas as barreiras ideológicas inviabilizam até hoje a chegada de um líder operário ao poder.Estudiosos da questão racial concordam num ponto: a miscigenação da experiência brasileira manteve os negros num patamar inferior, limitou seu acesso à educação, criou um racismo não-explícito e poucos canais para a ascensão profissional e pessoal para lideranças negras. Nos EUA, a segregação oficial e declarada produziu escolas, igrejas, postos de trabalho para negros e criou um canal de ascensão que não penetrava no mundo branco, mas formou uma classe média e uma elite empresarial negras.Uma diferença marcante entre as duas culturas é o chamado sistema classificatório. Nos EUA, não há mestiçagem: quem tem uma gota de sangue negro ("one drop rule") é negro. É o caso do presidente Barack Obama, mesmo sendo filho de uma mãe americana branca como o leite. "Aqui, a mestiçagem funcionou desde a escravidão como forma de cooptação para o lado do branco colonizador", observa a psicóloga Edna Roland, da secretaria da Mulher e da Igualdade de Direitos da Prefeitura de Guarulhos e ex-consultora da Unesco."Nos EUA, só se acabou com a escravidão com uma guerra civil que deixou marcas profundas. No Brasil, bastou uma penada", diz o historiador Manolo Florentino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Após a abolição da escravatura no EUA, lembra, a segregação passou a ser oficial: os casamentos inter-raciais eram proibidos e os negros - isto é, os não-brancos - não podiam entrar em lugares para brancos. "Equal, but separated" ("Iguais, mas separados"), deliberou, em 1896, a Suprema Corte."No Brasil, tivemos um processo bem mais sofisticado e desenvolvemos um racismo não- explícito", denuncia Edna. O sociólogo Antonio Sérgio Guimarães, da Universidade de São Paulo (USP), afirma que o Brasil integrou como brancos um expressivo contingente de mestiços: "Negro, no Brasil, é aquele que não pôde se fazer passar por branco", adverte. Já o ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, delimita a questão: "O grande dilema do Brasil é a falta de oportunidades iguais."O historiador Joel Rufino dos Santos, ex-professor da UFRJ, afirma que três fatores ajudaram na luta pelos direitos civis nos EUA: o bom acesso à educação, a aglutinação em torno da igreja protestante negra e a própria segregação. "É paradoxal, mas a existência de todo um aparato para os negros acabou ajudando a formar negros como gerentes e executivos de porte médio, o que foi importante na formação da classe média negra", diz.O acesso à educação deu aos negros americanos uma condição cultural bem superior à dos brasileiros. E, por fim, a convivência nas igrejas, em torno delas, e nas comunidades, plantou a semente da luta pelos direitos civis, em cuja liderança estiveram pastores como Martin Luther King. No Brasil, os negros nunca foram segregados nas igrejas, mas a existência de padres negros sempre foi muito esporádica. A formação de líderes políticos negros se afirmou como tradicional nos EUA desde o final do século 19. "Nunca formamos líderes negros", lamenta Joel.Por isso, é mais fácil ao negro ascender socialmente nos EUA que no Brasil, afiança o cientista político Jorge da Silva, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). A segregação oprimia os negros, mas lhes criava um universo próprio, dentro do qual eles podiam ascender, salienta. "Os negros brasileiros têm vergonha de se dizer negros porque ascendem socialmente negando sua cor. Nos EUA, essa possibilidade não existe", afirma Guimarães. Mas vai ser difícil surgir um Obama brasileiro, sentencia Joel: "Numa sociedade hierárquica como a brasileira fica difícil realizar uma democracia racial a esse ponto."

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