Luta por marfim tomba homens e elefantes

Guerrilhas sanguinárias e milícias estão entre grandes matadores de animais

LAWRENCE J. HAAS, LOS ANGELES TIMES; É PESQUISADORA DE PÓS-DOUTORADO NA UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA, BERKELEY, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2012 | 03h05

Dados mais recentes sobre as vítimas na guerra ancestral que entre o homem e os animais selvagens na África acabam de chegar e são péssimos para ambas as partes. Pelo menos 25 mil elefantes podem ter sido mortos na África em 2011 - mais do que em qualquer outro ano desde o início destes registros, em 2002 - segundo Kenneth Burnham, especialista em estatística para a agência de pesquisa intergovernamental Monitoring the Illegal Killing of Elephants (Monitorando o assassinato de elefantes, em tradução livre).

Centenas de pessoas também morreram como consequência da matança de elefantes - não apenas em razão de maus tratos ou pisoteadas, mas também pelas armas de outras pessoas que lutavam para salvar os animais.

Desde os anos 80, sob o disfarce de iniciativas para a conservação e com financiamento da União Europeia (UE), governos, ONGs, associações privadas e guardas dos parques africanos travam uma guerra informal contra os caçadores ilegais.

Na República Centro-Africana, a guerra contra os ilegais tem sido particularmente brutal. É difícil saber exatamente quantas pessoas morreram. Os grupos que apoiam os esforços contra a ilegalidade podem contar o número de guardas que tombam na linha de batalha, mas não os caçadores ilegais jogados em covas escondidas na selva. Os relatos do projeto contra os caçadores ilegais patrocinado pela UE na República Centro-Africana fornecem dados conflitantes e só fazem referências passageiras ao número de pessoas "neutralizadas" - ou colocam a categoria "homens" na coluna encabeçada com o nome "animais mortos".

Alguns guardas afirmam ter matado centenas de ilegais. Num caso particularmente macabro ocorrido em 2007 numa parte remota na região nordeste da República Centro-Africana, combatentes mutilaram corpos de caçadores ilegais que haviam assassinado. Testemunhas disseram ter visto membros humanos pendurados em galhos de árvores.

Ao mesmo tempo, a matança de elefantes continua. No Parque Nacional Zakouma, no sudeste do Chade, a UE financiou guardas de parques para combater os caçadores e os pastores nômades em suas violentas ações contra a caça ilegal. Incapazes de controlar efetivamente 3 mil quilômetros quadrados, eles se concentraram em algumas áreas específicas que constituem refúgios de elefantes. Não funcionou. Em 2006, acredita-se que havia 3 mil elefantes vivendo na área. Dois anos mais tarde, segundo a Sociedade para a Conservação da Vida Selvagem, restavam apenas mil. Um colega que fez algumas pesquisas na localidade no ano passado encontrou menos de 500.

Os guardas que combatem a caça ilegal demonizam ainda mais os caçadores descrevendo-os como estrangeiros vorazes. Mas habitantes da região muitas vezes se tornam coniventes. Na África Central, monstros conhecidos como O Exército da Resistência do Senhor ou as milícias janjaweed são citados como os principais matadores de elefantes. O marfim seria exportado pelo Sudão para a China.

Também são importantes canais menos óbvios. Por exemplo, grande parte do marfim de Zakouma seria colhido por chadianos e camaronenses e transportado não para leste até o Sudão, mas para oeste através do Chade e por Camarões e Nigéria. E embora os guardas que combatem a caça ilegal raramente sejam acusados de participar do comércio do marfim, são apanhados frequentemente comerciando carne de animais selvagens para os mercados locais.

O que é possível fazer? As estratégias de participação na conservação da fauna tiveram algum sucesso, pelo menos em zonas não militarizadas. Receitas produzidas pela gestão e conservação da vida selvagem, como impostos sobre o turismo e a caça esportiva, foram repassados às comunidades às margens das áreas protegidas. A ideia era que, se as pessoas tivessem um ganho financeiro com a preservação das populações animais elas teriam iniciativa para deter os caçadores. Esses esforços levaram a menos mortes. De acordo com Campfire, tanto populações de elefantes como humanas nestas áreas dobraram entre 1990 e 2003. Em áreas onde a violência é endêmica e os governos ineficientes, como a África Central, as estratégias repressivas são mais comuns.

A perspectiva de pôr fim à caça ilegal em zonas de guerra por meio da gestão humana é mínima. A única maneira de reduzir o assassinato de elefantes e as mortes humanas relacionadas é diminuir a demanda de marfim. E essa é uma tarefa descomunal.

Uma campanha de propaganda exibindo fotos horríveis de carcaças de elefantes provavelmente terá um impacto limitado na China, Tailândia e Filipinas - países que movimentam a demanda. Nesses países ela é motivada por crenças religiosas, como a noção de que o marfim serve para honrar a Deus, compartilhada tanto por católicos como budistas.

Fortalecer a estrutura legal internacional também é difícil, diante dos grandes lucros que o governo chinês, entre outros, obtém com o comércio. Somente as vendas de marfim retirado dos elefantes após 1989 estão proibidas - o que é muito fácil de manipular. TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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