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Gilles Lapouge
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Lutando contra o tempo

Nesta temporada, os prazos definitivos se multiplicam. Nesta semana se encerram dois de enorme alcance. O primeiro diz respeito à crise grega. A data limite já mudou algumas vezes. Marcada inicialmente para a semana passada, em seguida, foi fixada para hoje. Depois, o premiê grego, o turbulento Alexis Tsipras, a transferiu para o domingo. Então, ele convocou para o mesmo dia um referendo para que todos os gregos possam dizer se querem sair da zona do Euro ou não.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2015 | 02h05

O outro prazo refere-se às negociações sobre o programa nuclear iraniano, entre Teerã e os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, mais a Alemanha).

O acordo nuclear deverá ser assinado hoje, o mais tardar à meia-noite, como foi prometido. Mas, infelizmente, mais uma vez não será possível. Por isso, as potências esticaram o prazo.

Para quando? Uns poucos dias. Não mais que isso.

Um adiamento de algumas horas afinal não será problema se lembrarmos que as negociações com o Irã começaram em 2003. Com o seu fracasso, o Irã continuou multiplicando suas centrífugas, que servem para enriquecer o urânio, o combustível para a fabricação da bomba atômica. E os ocidentais seguiram bombardeando o Irã com inúmeras sanções.

As negociações morreram, mas despertaram subitamente em 2013 porque as sanções acabaram se tornando insuportáveis para o povo iraniano. Foi a chance. Em junho de 2013, foi eleito em Teerã um presidente moderado, Hassan Rohani. E houve outro sinal favorável. Barack Obama, que queria encerrar o ciclo delirante das intervenções americanas no exterior, estabelecera um acordo com o Irã o ponto central de sua diplomacia no Oriente Médio. As coisas caminharam muito depressa. Tão depressa que, em 15 de outubro de 2013, o chamado P5+1 e o Irã se reuniram no Hotel Intercontinental em Genebra. E, novamente um fracasso. O "grão de areia" que fez descarrilar o comboio, foi o então chanceler francês, Laurent Fabius. Ele foi para Genebra e declarou: "Isso não pode ir adiante. Se não acertarmos alguns pontos, não poderemos assinar".

O belo edifício se desmoronava. Dez anos de conversações muito duras, para nada. Contudo, todo mundo arregaçou as mangas e o trabalho foi reiniciado. Barack Obama está convencido de que a assinatura de um acordo tranquilizará o Irã a ponto de o país abandonar seu sonho de obter uma arma nuclear. O presidente americano calcula também que o Irã poderá mostrar uma atitude mais conciliadora em relação ao problema da Síria, onde apoia o presidente Bashar Assad, e também no caso do Iraque.

Entre os países hostis ao acordo, está a França que deseja aumentar as precauções, as supervisões e reservar, sempre, a ameaça das sanções. Estão também os países sunitas, que veem com pavor o Irã, o poderoso país xiita, sair de sua longa penitência. Diversos países sunitas, entre eles Arábia Saudita, Egito e Turquia, deixaram entender que poderão se lançar em uma corrida nuclear se o Irã conseguir obter a arma atômica.

Estas as razões pelas quais o prazo final previsto para a assinatura de um acordo foi adiado de alguns minutos ou de algumas horas.

Entretanto, podemos imaginar que, com o tempo, a lúcida obstinação de Barack Obama vencerá todos os obstáculos e permitirá que o brilhante presidente americano obtenha sua primeira grande vitória diplomática. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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