Lutar o bom combate

Com os Bálcãs em paz, alguns de seus habitantes buscam a guerra no exterior

O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2015 | 02h05

Do Mar de Azov a Alepo, há milicianos dos Bálcãs ocidentais pegando em armas por toda parte. Os governos dessa península europeia estão tão preocupados que aprovaram leis criminalizando a participação em conflitos armados no exterior. Também estabeleceram acordos de cooperação entre os seus serviços de segurança e os de outros governos, para monitorar os cidadãos de seus países que vão lutar em outras terras. Os números são pequenos, mas, em termos relativos, a presença de indivíduos provenientes dos Balcãs em campos de batalha estrangeiros é grande.

Cristão ortodoxos sérvios juntam-se aos rebeldes pró-Rússia na Ucrânia, enquanto católicos croatas lutam do lado da Ucrânia. Muçulmanos albaneses, bósnios e os da região de Sandzak, que se divide entre Sérvia e Montenegro, lutam no Iraque e na Síria. Todos divulgam suas mensagens online e mandam saudações uns aos outros.

No mês passado, dois croatas postaram um vídeo no YouTube em que aparecem dizendo com sarcasmo: "A gente se vê em breve!", para seus "amigos" sérvios. Aos olhos de sérvios e croatas, essa guerra tem um pouco de replay da guerra que eles travaram nos anos 90 e outro tanto de aventura - ou cruzada.

Nos últimos tempos, os sérvios que estão no leste da Ucrânia andam mais ocupados com diferenças internas. O sérvio de maior destaque na região é Radomir Pocuca, que já foi porta-voz do Ministério do Interior de seu país. No mês passado, ele foi capturado por outros milicianos sérvios, que o humilharam, postando no Facebook fotos em que ele aparece amarrado, vendado e com camiseta estampando a bandeira da Sérvia e o lema "Honra Sérvia".

Muitos sérvios integram pequenos grupos ultranacionalistas. Abominam o governo do país, odeiam a União Europeia e são contra o ingresso da Sérvia na Otan. Acreditam estar lutando uma luta cristã. Nisso eles se parecem com os croatas que se juntaram aos ucranianos do famigerado Batalhão Azov, cujos símbolos neonazistas atraíram voluntários de extrema direita de várias partes da Europa.

O pesquisador polonês Kacper Rekawek diz que, apesar de receberem muita atenção, há relativamente poucos estrangeiros lutando na Ucrânia, além dos russos. Pelos seus cálculos, são aproximadamente 300 os milicianos de outros países que se engajaram de cada lado. No entanto, um dos maiores grupos é justamente o dos até 100 sérvios que combatem ao lado dos rebeldes pró-Rússia. Os croatas, com cerca de 25 milicianos, são o terceiro maior contingente estrangeiro do lado do governo ucraniano.

Na Síria e no Iraque, os números são bem maiores. Shpend Kursani, autor de um relatório sobre os kosovares que se deslocaram para esses países, diz ter identificado 232 indivíduos. Além deles, tem-se notícia da presença de 330 bósnios, 90 albaneses, 70 sérvios e 12 macedônios.

O líder do contingente albanês no Estado Islâmico é Lavdrim Muhaxheri, que, segundo disse a Kursani um miliciano que retornou à Albânia, é obcecado com sua popularidade nas mídias sociais, tendo inclusive gravado um vídeo em que aparece decapitando um refém iraquiano. Kursani observa que, tomando esses jihadistas como porcentual da população de seus respectivos países, os kosovares aparecem em primeiro lugar numa lista de 22 nações.

A Bósnia fica em segundo e a Albânia, em quarto. Como porcentual da população muçulmana de cada país, porém, os kosovares caem para a 14.ª colocação, ficando entre alemães e espanhóis. Os bósnios aparecem na 11.ª posição e os albaneses, na 20.ª. Os nove primeiros países são da Europa Ocidental.

Segundo Kursani, a maioria dos kosovares que estão na Síria vem de áreas rurais e tem baixo nível educacional. Quase dois quintos têm passagens pela polícia. Sabe-se que cerca de 34 deles foram mortos. Ao contrário do que diz o senso comum, que responsabiliza a influência saudita, o relatório de Kursani mostra que os milicianos dos Balcãs são motivados pela ideologia takfiri, que vem sendo disseminada em Kosovo por líderes religiosos albaneses instalados na Macedônia, os quais, por sua vez, impregnaram-se dela no Egito.

A maioria dos milicianos é presa ao retornar ao país de origem (mas não na Croácia, onde participar de conflitos militares no exterior não é crime). Talvez seja por isso que os Bálcãs estejam exportando menos milicianos agora. Os governos da região não querem nem nacionalistas extremistas nem islamistas causando problemas. O surpreendente é como, descontando-se as diferenças religiosas, a maioria dos milicianos balcânicos se mostra unida: contra o liberalismo e o Ocidente.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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