Andrew Harnik/AP
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Em entrevista, Biden diz que manterá tarifas à China e quer voltar ao acordo nuclear com Irã

Em conversa com o jornalista Thomas L. Friedman, do 'New York Times', presidente eleito fala de seus planos para governar o país e para superar o 'horror dos últimos quatro anos'

Thomas L. Friedman / The New York Times, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2020 | 18h33

BETHESDA, EUA - O presidente eleito Joe Biden estava de bom humor quando conversamos por telefone na terça-feira à noite durante uma hora - ele em Delaware e eu em Bethesda, Maryland. Biden se desculpou, porém, por estar atrasado. Ele vinha acompanhando as notícias de última hora de que o secretário de Justiça, William Barr, acabara de anunciar que o Departamento de Justiça não havia descoberto nenhuma fraude significativa que pudesse ter afetado os resultados da eleição presidencial. Está tudo acabado.

Biden brincou que Barr tinha acabado de ligar para ele: “Perguntou se eu (Biden) poderia incluí-lo no programa de proteção a testemunhas por me endossar”. 

Considerando o furacão de alegações desonestas da equipe de Trump a respeito dos resultados da eleição, o presidente eleito teve o direito de rir às custas deles. Fora isso, ele foi completamente formal.

Biden tinha muito a dizer em relação a como pretende abordar o atual líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, e seus colegas republicanos a fim de obter seus indicados para o Gabinete - e o máximo possível de sua agenda - na Casa; como ele pretende reformular a estratégia EUA-China; e por que ele está pronto para retomar o acordo nuclear com o Irã, se o país o fizer, e acabar com as sanções do presidente Donald Trump a Teerã.

Biden também falou em profundidade a respeito de sua estratégia para se conectar com os americanos das áreas rurais do país, que se afastaram do Partido Democrata.

Eu fiz uma pergunta pessoal: como foi ganhar a presidência sob circunstâncias tão estranhas - com uma pandemia mortal e uma infodemia de propaganda trumpista alegando falsamente que a eleição foi fraudada?

“Sinto que fiz algo de bom para o país, garantindo que Donald Trump não seja presidente por mais quatro anos”, disse Biden. “Mas não houve nenhum momento de euforia. Isso meio que me lembra o que está acontecendo com todos os meus netos. Você sabe, aqui eu tenho uma neta que se formou com láurea acadêmica em Columbia. Não haverá a habitual cerimônia de formatura. Eu sou o orador da formatura. Será virtual. Esses jovens estão se formando sem festas. É apenas um daqueles momentos. Há muito trabalho a ser feito. Estou apenas focado em fazer algumas coisas o mais rápido possível.”

Exatamente quanto ele fará dependerá em grande parte de duas coisas, observou Biden. Uma é como os republicanos no Senado e na Câmara vão se comportar depois de Trump realmente deixar o poder. E a outra é como McConnell se comportará se continuar controlando o Senado.

A principal prioridade de Biden, disse ele, é conseguir um pacote de estímulo generoso no Congresso, mesmo antes de assumir o cargo.

Estamos cortejando um sério prejuízo econômico de longo prazo se não lidarmos com o fato de que "você tem mais de 10 milhões de pessoas preocupadas (em como) vão poder pagar a próxima parcela de sua hipoteca" e "você tem um número significativamente maior de pessoas que não têm condições de pagar o aluguel”.

Um estímulo generoso realmente gerará crescimento econômico sem prejuízo fiscal de longo prazo se no futuro "todos pagarem sua parte justa, pelo amor de Deus", ele insistiu. “E com essa parte justa, quero dizer que não há razão para que a taxa de imposto máxima não deva ser de 39,6%; como era no início do governo Bush. Não há razão para que 91 das empresas que estão na Fortune 500 não estejam pagando impostos.”

Mas a grande questão é se ele conseguirá passar por McConnell hoje ou amanhã, se os republicanos continuarem com a maioria no Senado. Um número significativo de senadores republicanos poderia decidir que querem manter o déficit sob controle com o presidente Biden, após quatro anos de gastos descontrolados durante o governo Trump, que levaram a dívida nacional a níveis recordes.

Biden foi cauteloso ao mencionar McConnell, que tem tido o cuidado de não chamar Biden de "presidente eleito". Biden obviamente quer manter abertas as perspectivas de cooperação - mas também deixar claro que ele pode ter mais influência com o povo americano do que o Partido Republicano percebe, caso os republicanos do Senado optarem pela obstrução total.

“Deixe-me colocar desta forma”, disse ele, “Há uma série de coisas que quando McConnell controlava o Senado, as pessoas diziam que não poderiam ser feitas, e eu fui capaz de fazer com (ele). Consegui fazer com que eles, você sabe, aumentassem os impostos sobre os ricos. ”

“Acho que há contrapartidas, que nem toda concessão foge dos princípios”, acrescentou Biden. "Ele me conhece. Eu o conheço. Eu não peço a ele que se envergonhe de fazer um acordo."

Ao mesmo tempo, se os republicanos claramente "deixarem tudo isso ir pelo ralo" apenas para que o governo Biden não obtenha uma vitória, isso "pode ter um impacto na perspectiva dos republicanos que concorrerem à reeleição em 2022".

“Quando você tem policiais, bombeiros e socorristas por todos os lados sendo demitidos, quando você não está recebendo o tipo de distribuição de vacinas para a área rural dos EUA”, disse ele, “isso tem que ter algumas consequências”.

Depois de passar por muitas temporadas políticas, acrescentou Biden, o mundo pode mudar muito para os legisladores republicanos assim que Trump se for, embora ele certamente não será esquecido.

'Vai ser difícil, mas sim' 

Sobre política externa, Biden fez duas observações importantes. Primeiro, perguntei se ele mantinha suas opiniões em relação ao acordo nuclear com o Irã, que ele articulou em um ensaio de 13 de setembro no site da TV CNN. Ele respondeu: "Vai ser difícil, mas sim."

Ele escreveu que “se o Irã voltar a cumprir estritamente o acordo nuclear, os EUA voltariam a aderir ao acordo como ponto de partida para as negociações subsequentes” e suspenderiam as sanções impostas por Trump ao Irã.

Os iranianos estão claramente esperando por isso. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Javad Zarif, disse em 17 de novembro que o retorno à implementação total pelos EUA e pelo Irã pode ser "feito automaticamente" e "não precisa de negociações".

O acordo nuclear - conhecido como Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, na sigla em inglês) - foi assinado em 2015. Trump retirou-se unilateralmente em maio de 2018, impondo sanções pesadas sobre o setor petroleiro do Irã, alegando que isso era, para início de conversa, um mau negócio e que o Irã estava trapaceando - o que não era a opinião de nossos aliados europeus ou inspetores internacionais.

A visão de Biden e sua equipe de segurança nacional é que, uma vez que o acordo seja restaurado por ambas as partes, deverá haver, em muito pouco tempo, uma rodada de negociações para buscar estender a duração das restrições à produção de material físsil do Irã que poderia ser usado para fazer uma bomba - originalmente 15 anos - bem como para lidar com as atividades regionais malignas do Irã, por meio de seus representantes no Líbano, Iraque, Síria e Iêmen.

Idealmente, a equipe de Biden gostaria que as negociações subsequentes incluíssem não apenas os signatários originais do acordo - Irã, EUA, Rússia, China, Reino Unido, França, Alemanha e União Europeia - mas também os vizinhos árabes do Irã, particularmente a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos.

No início desta semana, escrevi uma coluna argumentando que não seria sensato para os EUA desistir da influência das sanções impostas por Trump ao petróleo apenas para retomar o acordo nuclear de onde ele havia sido abandonado. Devemos usar essa vantagem também para fazer o Irã conter suas exportações de mísseis guiados de precisão para seus aliados no Líbano, Síria, Iêmen e Iraque, onde ameaçam Israel e vários países árabes. Eu ainda acredito nisso.

A equipe de Biden está ciente desse argumento e não acha que seja loucura - mas por enquanto eles insistem que o grande interesse nacional dos EUA é colocar o programa nuclear do Irã de volta sob controle e totalmente inspecionado. Em sua opinião, o desenvolvimento de uma arma nuclear pelo Irã representa uma ameaça direta à segurança nacional para os EUA e para o regime global de controle de armas nucleares, o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares.

“Olha, fala-se muito a respeito de mísseis de precisão e todas as outras coisas que estão desestabilizando a região”, disse Biden. Mas o fato é que “a melhor maneira de conseguir alguma estabilidade na região” é lidar “com o programa nuclear”.

Se o Irã conseguir uma bomba nuclear, ele acrescentou, isso colocará uma enorme pressão sobre os sauditas, Turquia, Egito e outros para obterem armas nucleares. “E a última coisa de que precisamos naquela parte do mundo é um fortalecimento da capacidade nuclear.”

Então, Biden disse, "em consulta com nossos aliados e parceiros, vamos nos envolver em negociações e acordos subsequentes para limitar e prolongar as restrições nucleares do Irã, bem como abordar o programa de mísseis". Os EUA sempre têm a opção de revogar as sanções se necessário, e o Irã sabe disso, acrescentou. Haverá muito debate em relação a isso nos próximos meses.

Quanto à China, ele disse que não agirá imediatamente para remover as tarifas de 25% que Trump impôs sobre cerca de metade das exportações da China para os EUA - ou o acordo de Fase 1 que Trump assinou com a China que exige que Pequim compre cerca de US$ 200 bilhões de bens e serviços americanos durante o período de 2020 e 2021 - nos quais a China está significativamente atrasada.

“Não vou tomar nenhuma atitude imediata, e o mesmo se aplica às tarifas”, disse ele. “Não vou prejudicar minhas opções.”

Ele deseja primeiro realizar uma revisão completa do acordo existente com a China e consultar nossos aliados tradicionais na Ásia e na Europa, disse ele, “para que possamos desenvolver uma estratégia coerente”.

“A melhor estratégia para a China, eu acho, é aquela que coloca todos os nossos - ou pelo menos os que costumavam ser nossos - aliados de acordo. Será uma grande prioridade para mim, nas primeiras semanas de meu mandato, tentar nos posicionar de acordo com nossos aliados.”

As lideranças da China tinham seus problemas com Trump, mas sabiam que, enquanto ele fosse presidente, os EUA jamais poderiam galvanizar uma coalizão global contra eles. A estratégia de Biden, se ele conseguir, não será uma boa notícia para a China.

Enquanto Trump estava focado no déficit comercial com a China, com pouco sucesso, apesar de sua guerra comercial, Biden disse que seu “objetivo seria buscar políticas comerciais que realmente produzissem progresso nas práticas abusivas da China - isto é, roubo de propriedade intelectual, venda de produtos abaixo do preço de mercado (dumping), subsídios ilegais para corporações ” e forçando “transferências de tecnologia” de empresas americanas para suas equivalentes chinesas.

Ao lidar com a China, concluiu Biden, é tudo uma questão de "influência" e "na minha opinião, ainda não temos isso". Parte da criação de mais influência, no entanto, é desenvolver um consenso bipartidário em casa para alguma boa e velha política industrial americana - investimentos massivos liderados pelo governo em pesquisa e desenvolvimento americanos, infraestrutura e educação para competir melhor com a China - e não apenas reclamar sobre isso. Tanto senadores democratas quanto republicanos têm projetos de lei pedindo essa estratégia. A indústria de semicondutores dos EUA, em particular, tem feito lobby por essa abordagem.

“Quero ter certeza de que lutaremos com todas as forças investindo primeiro nos EUA”, disse Biden. Ele mencionou energia, biotecnologia, materiais avançados e inteligência artificial como áreas propícias para investimentos governamentais em larga escala em pesquisa. “Não vou entrar em nenhum novo acordo comercial com ninguém até que tenhamos feito grandes investimentos aqui e em nossos trabalhadores” e na educação, disse ele.

América rural não ficará para trás

E desta vez, ele insistiu, a parte rural dos EUA não ficará para trás. Não há como os democratas passarem mais quatro anos (no poder) e perderem em quase todos os condados rurais do país. Para seu bem e para o bem dos EUA, os democratas precisam descobrir o que está acontecendo nesses locais e falar com os eleitores das áreas rurais de forma mais eficaz.

“Você sabe, isso realmente vai para a questão de dignidade, como você trata as pessoas”, disse Biden. “Eu acho que eles se sentem esquecidos. Acho que os esquecemos. ” “Eu os respeito”, acrescentou Biden, e ele planeja provar isso “combatendo o vírus” em “áreas republicanas e democratas”.

Temos “de acabar com a crise de saúde nas áreas rurais atualmente, com base no Obamacare, presumindo que ele sobreviva, com uma opção pública (e) inscrevendo automaticamente pessoas qualificadas para o Medicaid. Há um forte apoio para isso - e particularmente (de) pessoas em Estados rurais, como Texas e Carolina do Norte, que rejeitam a expansão. Podemos aumentar o financiamento. Visitei 15 hospitais rurais. E o maior problema é que não há ressarcimento suficiente para que eles possam se manter abertos.” E muitas vezes eles são a maior fonte de empregos nessas cidades.

Muitos desses hospitais e clínicas rurais poderiam se beneficiar da telemedicina, mas eles não têm internet de banda larga. “Devemos gastar US$ 20 bilhões para colocar banda larga por todos os lados”, disse Biden. “Temos que reconstruir a classe média”, mas “especialmente na parte rural dos EUA”.

Biden encerrou refletindo sobre o horror dos últimos quatro anos - primeiro vendo o copo meio vazio, mas depois decidindo no fim, quem sabe, talvez esteja meio cheio.

“Setenta e dois milhões de pessoas é um monte de gente que votou” em Trump, disse ele. Mas talvez, apenas talvez quando ele tiver saído de cena, "Não tenho tanta certeza de que o horror permaneça. Pode haver 20% disso. Vinte e cinco por cento disso, eu não sei. ”

Mas alguma parte tem que voltar para um patamar onde possamos colaborar. “Precisamos descobrir como trabalhar juntos”, disse ele. Caso contrário, “estamos com sérios problemas”. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

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